Flávia Rezende (TCE-AM)
Em um cenário em que a tecnologia deixou de ser apenas suporte e passou a ocupar um lugar estratégico no controle público, o 1º Seminário da Rede de Secretários de Tecnologia da Informação dos Tribunais de Contas (Rede STI) reuniu, em Belo Horizonte (MG), nesta quarta-feira (1º), especialistas e gestores de todo o país para uma manhã intensa de trocas, dados e experiências. Mais do que um encontro técnico, o evento acabou se consolidando como um espaço de articulação nacional. Pode-se dizer, daqueles que ajudam a alinhar caminhos, compartilhar soluções e, principalmente, dar pistas concretas do que vem pela frente na inovação das Cortes de Contas.
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Logo na abertura, a mesa institucional deu o tom do que viria ao longo da manhã. Representando o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), o diretor-geral Gustavo Vidigal chamou atenção para o papel central da informação na gestão pública. “A matéria-prima do mundo hoje é a informação”, resumiu, ao defender que tecnologia e planejamento precisam caminhar juntos para gerar resultados de fato.
Na sequência, o vice-presidente de Desenvolvimento do Controle Externo e Transparência da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon),Carlos Ranna, trouxe um ponto que atravessou boa parte das discussões: a necessidade de fazer a estratégia chegar na prática. “Não basta planejar, é preciso integrar e executar”, afirmou, ao destacar o papel das redes no sistema Tribunais de Contas.
Fechando esse primeiro momento, o vice-presidente de Tecnologia e Inovação da Atricon, Ricardo Torres, reforçou o quanto a área de TI ganhou protagonismo nos últimos anos. “A tecnologia da informação deixou de ser acessória”, disse, ao destacar o papel da Rede STI como espaço de integração e aprendizado coletivo entre os tribunais.
Passada a abertura, o seminário avançou para um dos pontos mais esperados da programação: a apresentação das diretrizes e metas da Rede STI para o biênio 2026-2027.
Entregáveis da Rede STI
A condução ficou por conta de Ana Carolina Morais, secretária-executiva da rede, e de Hugo Viana, secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (TCE-RO). Ao todo, foram apresentados 15 entregáveis estruturados em quatro diretrizes, com foco em governança tecnológica, proteção de dados, modernização do sistema e apoio à implementação do Marco de Medição de Desempenho e Impacto dos Tribunais de Contas (MMDI-TC).
O planejamento prevê 15 entregáveis estruturados em quatro diretrizes principais, com foco no fortalecimento da governança tecnológica, na proteção de dados, na modernização do sistema e no apoio à implementação do MMDI-TC.
Entre os destaques, estão a construção de diretrizes nacionais de governança de soluções tecnológicas e serviços digitais, além de iniciativas voltadas à cibersegurança e à governança de dados. Parte dessas entregas já começa a ser estruturada em 2026, com consolidação prevista para 2027, formando um conjunto estratégico que será disponibilizado a todos os tribunais.
Outro ponto relevante apresentado foi a realização de um censo nacional da infraestrutura, orçamento e estrutura organizacional das áreas de TI. A proposta é gerar dados comparativos que subsidiem decisões estratégicas e fortaleçam a atuação integrada entre os Tribunais.
Um repositório colaborativo que já está disponível também foi apresentado. A página reúne iniciativas de inovação, incluindo um catálogo de soluções com uso de inteligência artificial generativa. O objetivo da ferramenta é incentivar o intercâmbio de experiências e evitar a repetição de iniciativas que já existam em outro tribunal.
Apresentação de cases
Com a programação voltada à prática, o seminário abriu espaço para apresentação de cases de inovação já em implementação nos tribunais.
O primeiro deles foi o Aurora Ágil, do TCE de Pernambuco, que utiliza inteligência artificial para automatizar a criação de histórias de usuário no desenvolvimento de software. A iniciativa já apresenta resultados expressivos, como redução significativa no tempo de elaboração de requisitos e ganho de produtividade das equipes.
Na sequência, foi apresentado o projeto Sergipe Transparente (Serigy), que utiliza automação e inteligência artificial para qualificar a fiscalização dos portais de transparência pública. A solução permite geração de indicadores e apoio ao trabalho dos auditores, e ainda amplia a transparência para a sociedade.
Já o TCE do Ceará trouxe sua experiência na construção de uma estratégia de cibersegurança baseada em gestão de riscos, monitoramento e fortalecimento da cultura institucional. A iniciativa envolve desde inventário de ativos e controle de acessos até a criação de trilhas contínuas de capacitação.
Ainda entre os cases, foi apresentada uma solução de IA aplicada à análise de prestações de contas, conduzida por Eric Hans. o Agente TIC surgiu a partir do desafio de dar conta de um volume anual de mais de mil processos relacionados a compras de tecnologia, analisados por uma equipe reduzida. O programa desenvolvido automatiza o cruzamento de dados e gera relatórios com alto nível de precisão. Na prática, o modelo organiza e valida informações de forma escalável, reduzindo o esforço manual e abrindo caminho para reaplicação em outros tipos de auditoria.
Encerrando esse bloco, o auditor Deyvenson Carvalho, do Tribunal de Contas de Minas Gerais, apresentou o uso de inteligência artificial na análise de editais de concursos públicos. A ferramenta já está em funcionamento e vem trazendo resultados positivos: em cerca de um minuto e meio, o sistema consegue analisar um edital, identificar possíveis inconsistências e verificar a conformidade com as normas legais.
Antes da implementação, o processo era mais lento e dependia de triagem manual, o que limitava a capacidade de análise do Tribunal. Além disso, a solução também atua como apoio ao jurisdicionado, auxiliando na elaboração dos editais desde a origem.
Momento Tech
Na sequência, o seminário entrou no “Momento Tech”, espaço dedicado à apresentação de soluções tecnológicas por empresas parceiras, com demonstrações práticas de ferramentas já adotadas ou em fase de implementação nos Tribunais.
A BRASEC apresentou soluções voltadas à cibersegurança, com foco na proteção de redes locais e ambientes em nuvem. Entre os destaques, a ferramenta ACCUKNOX, que oferece monitoramento em tempo real, proteção de dados e uso de ambientes sandbox para testes e simulações seguras.
Gustavo Fortuna e Felipe Amaral, da Blushift em parceria com a Microsoft, trouxeram soluções voltadas ao uso de dados em todo o ciclo analítico, incluindo ferramentas de Business Intelligence e aplicações de inteligência artificial generativa, ampliando as possibilidades de análise e apoio à tomada de decisão.
Pela PD CASE, o gerente executivo Guilherme Marotta apresentou, ao lado de Giordano Machel, secretário de Tecnologia e Inovação do Tribunal de Contas do Maranhão, ferramentas voltadas à análise de dados e apoio à fiscalização, já utilizadas em algumas cortes.
Já pela TECHBIZ, o gerente de produtos João Aversa apresentou soluções com foco em monitoramento e análise aprofundada de informações. As ferramentas permitem rastrear dados em diários oficiais, portais de transparência e redes sociais, além de realizar análise de vínculos e gerar relatórios completos sobre pessoas físicas e jurídicas a partir de diversas bases de dados, recursos que fortalecem as atividades de fiscalização.