Keynes e a inteligência artificial


Em 1930, o grande economista Jonh Maynard Keynes escreveu um importante ensaio com o título “As possibilidades econômicas para os nossos netos”, em que ele especulava sobre o futuro do trabalho e do lazer e sobre o aumento de produtividade nos cem anos seguintes. Em síntese, Keynes previa que o padrão de vida médio das populações dos países desenvolvidos aumentaria entre quatro e oito vezes em comparação ao daquele ano e que a jornada de trabalho seria reduzida para quinze horas semanais.

A realidade confirmou muitos prognósticos de Keynes, mas outras ficaram bem distantes. De fato, a renda real per capita subiu mais de cinco vezes no período, com ele o consumo por pessoa, mas as jornadas de trabalho só se reduziram em vinte e cinco por cento. O “home office” se generalizou, acelerado pela pandemia, mas muitos autores apontam que vivemos a “sociedade do cansaço”, na expressão de Byung-Chul Han, da expressão do filósofo sul-coreano, muito mais do que a sociedade do lazer, como previra Keynes.

Há muitas causas. Uma delas é que, com o aumento da produção e da produtividade, vieram novos e mais elevados padrões de consumo, e o mundo do trabalho não passou a pagar salários compatíveis com jornadas reduzidas. Para Keynes, um dos problemas do homem do século XXI seria como ocupar o tempo com lazer, para que o ócio excessivo não fosse pouco saudável. Nada mais distante da realidade.

Com a inteligência artificial, as previsões e esperanças de Keynes se renovam. Uma série de tarefas atualmente realizadas por seres humanos poderá ser feita por máquinas guiadas por algoritmos. Se o processo for bem conduzido e as lideranças políticas conseguirem distribuir adequadamente esses ganhos, não permitindo a concentração em algumas empresas e em alguns bilionários, questões essenciais de pobreza que ainda persistem no mundo poderão ser resolvidas em breve e o tempo para o lazer poderá aumentar muito para todos. Poderá ser um futuro promissor. Mas pode ser o contrário também, se as novas tecnologias forem apenas geradoras de desemprego em massa e concentradoras de renda, que resultarão em um futuro sombrio, com riscos de forte desagregação social.

Edilberto Pontes – Presidente do Instituto Rui Barbosa e vice-presidente do TCE Ceará.