O banco que prometia balas demais

Inaldo da Paixão Santos Araújo

Noites em Cacha Pregos. Embora estando no lugar que eu mais procuro para fugir de mim, é ali que mais me encontro. Mesmo sabendo que preciso ouvir mais o mar, ainda acho tempo para assistir ao Jornal Nacional (JN).

— Tio, por que esse banco quebrou?

A pergunta veio de Antônio, onze anos, polegares velozes no celular e, embora não parecesse, ouvido atento à TV. O JN falava sério, como quase sempre, mas o afilhado de minha mulher parecia mais interessado do que muito adulto por aí.

Respirei fundo. Explicar sobre banco já é difícil. Explicar sobre Banco Central, STF e TCU para uma criança é quase como explicar por que um adulto promete o que não pode cumprir.

— Sabe quando alguém promete no recreio devolver duas balas a cada bala recebida de coleguinhas na escola, mas acaba chupando boa parte das balas recebidas? — perguntei.

Antônio riu:

— Aí dá ruim.

— Pois é. O Banco Master foi mais ou menos isso.

Expliquei que um banco é como uma grande caixinha onde as pessoas guardam dinheiro. O banco usa esse dinheiro para emprestar a outros, assim ganhar um pouquinho, pagar impostos, cobrir despesas e ainda devolver, com segurança, o que foi obtido com um ganho para quem guardou. Mas o tal Banco Master resolveu brincar de mágico sem saber fazer truque.

Prometia pagar muito mais dinheiro do que os outros bancos. Enquanto uns ofereciam uma bala simples, ele oferecia um saco inteiro, com chiclete, pirulito e figurinha. Para atrair gente, dizia: “Pode confiar, se der problema, até 250 balas estão garantidas”.

— E estava mesmo? — perguntou Antônio, já desconfiado.

— A garantia existe, mas não é mágica. Quando todo mundo começa a desconfiar e correr ao mesmo tempo, nem a melhor promessa segura.

O problema, expliquei, é que para pagar tanta bala, o banco precisava emprestar dinheiro para quem aceitasse pagar juros altíssimos. E quem aceita pagar tão caro normalmente não é o melhor aluno da sala. Resultado: o risco cresceu, o dinheiro sumiu e o castelo de cartas balançou.

Aí entra o Banco Central, que é como o inspetor da escola. Quando vê que alguém está fazendo bagunça demais e pode machucar os outros, ele apita o fim do jogo. Foi o que fez: fechou o banco para evitar um estrago maior.

Mas alguns adultos importantes resolveram discutir se o apito foi certo. E isso, segundo o economista da TV, passa uma mensagem perigosa: se até o inspetor pode ser desautorizado, quem vai manter a ordem no recreio?

— Então o problema não foi azar? — insistiu Antônio.

— Não. Foi escolha errada. Desde o começo. Foi promessa demais, ambição demais e ganância demais.

Ele pensou um pouco, largou o celular e concluiu:

— Então prometer demais é sinal de problema.

Sorri. Se todo adulto entendesse isso, talvez o noticiário fosse mais curto — e o recreio, mais seguro.

Inaldo da Paixão Santos Araújo é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) e presidente eleito do Instituto Rui Barbosa (IRB)