Inaldo da Paixão Santos Araújo
Não é de hoje que a Bahia sonha com a ligação entre Salvador e a Ilha de Itaparica. Sonho antigo, que atravessou gerações, ora visto como uma utopia, ora como uma promessa política, ora como um desafio técnico e financeiro de proporções quase intransponíveis. Agora, esse sonho ganha contornos ainda mais concretos com o anúncio da criação de uma secretaria estadual exclusiva — a Seponte — que terá como missão acompanhar a construção e a operação da tão esperada Ponte Salvador-Itaparica.
O investimento, de R$ 10,6 bilhões, não é apenas um número que salta aos olhos. É também a tradução de expectativas: de mobilidade, de crescimento econômico, de integração territorial, de modernização logística, de conforto para milhares de cidadãos que diariamente enfrentam as limitações da travessia marítima. Não se trata, portanto, de mais uma obra de engenharia; trata-se de um marco de infraestrutura que poderá reposicionar a Bahia em seu desenvolvimento regional e nacional.
Há, contudo, uma dimensão que precisa ser lembrada: uma obra desse porte exige não apenas cimento e aço, mas também governança. Daí a decisão do governador Jerônimo Rodrigues de criar uma estrutura específica, enxuta, mas dedicada ao projeto. Em tese, é uma medida acertada. Grandes obras pedem grandes arranjos institucionais. Afinal, a complexidade técnica da engenharia, somada à modelagem econômico-financeira da Parceria Público-Privada, não permite improvisações.
É aqui que mora a reflexão. Não basta criar uma secretaria para que a ponte exista no tempo certo, com o custo devido e a qualidade esperada. É preciso cuidar de quem conduzirá o leme dessa pasta. A Seponte precisa ser ocupada – e sei que assim será – por quadros técnicos, com experiência comprovada, capazes de dialogar com engenheiros, economistas, advogados, órgãos de controle e, sobretudo, com a sociedade, que é a real destinatária da obra.
Mas a reflexão não para aí. Se a Bahia dá um passo ao criar a Seponte, é justo lembrar de outro passo, ainda não dado: a criação da Controladoria Geral do Estado (CGE). Em nossas análises das contas públicas, já destacamos a ausência dessa estrutura que, em quase todo o país, é responsável por fortalecer o controle interno, assegurar a legalidade e a eficiência do gasto público, além de fornecer informações gerenciais estratégicas para o próprio governo. Apenas três estados, entre eles a Bahia, ainda não dispõem de uma CGE nos moldes nacionalmente reconhecidos. É uma lacuna que pode fragilizar o arcabouço institucional de controle e que precisa ser preenchida.
Não se trata de capricho ou de formalismo burocrático. A criação da CGE é essencial para dar robustez à gestão pública. É também uma forma de honrar o legado de Waldir Pires, baiano que tanto idealizou e defendeu a necessidade de um controle interno forte, moderno e independente e que, em 2026, se vivo estivesse completaria 100 anos. A ponte pode representar o futuro da mobilidade baiana, mas a Controladoria representa o futuro da boa governança. Sem ela, a Bahia corre o risco de avançar em concreto e aço, mas permanecer fragilizada na transparência e no controle.
Talvez seja essa a verdadeira ponte de que precisamos: não apenas a que ligará Salvador a Itaparica, mas a que ligará o sonho à realidade, a obra física à boa gestão, o investimento bilionário à confiança social. Uma ponte sobre o tempo, capaz de deixar para trás a era da improvisação e do clientelismo e de inaugurar uma etapa de escolhas técnicas, responsáveis, duradouras.
As críticas, inevitavelmente, virão. Haverá quem questione o custo, quem duvide da execução, quem tema atrasos ou superfaturamentos. Mas a melhor resposta não estará nos discursos inflamados ou nas promessas políticas. Estará na condução técnica, na fiscalização eficaz, na entrega de uma obra que honre os baianos e seja lembrada como um símbolo de modernidade e competência.
Que a Seponte, então, seja mais do que uma secretaria: que seja um compromisso. E que a Bahia, ao erguer sua ponte física, erga também a ponte institucional que falta — a Controladoria Geral do Estado. Só assim estaremos, de fato, construindo não apenas um caminho sobre as águas, mas um futuro mais sólido para nossa gente.
Porque o concreto se deteriora, o aço enferruja, mas as boas instituições — quando bem erguidas — permanecem.
Inaldo da Paixão Santos Araújo é conselheiro do TCE-BA e presidente eleito do IRB