Entre a serenidade e a birra: os desafios da democracia brasileira

João Antonio

Serenidade é o estado de espírito marcado pela calma, pelo equilíbrio emocional e pela tranquilidade. É a capacidade de lidar com adversidades sem se deixar dominar por perturbações, mantendo a paz interior mesmo diante de problemas complexos ou de obstáculos inesperados.

No Brasil dos tempos atuais, o que se espera daqueles que organizam e conduzem o poder é, precisamente, serenidade. Os episódios recentes em Brasília — como a rejeição, pelo Senado da República, da indicação de Messias, nome indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o Supremo Tribunal Federal, e a derrubada de veto pelo Congresso Nacional, com impacto na dosimetria das penas relacionadas à tentativa de golpe de Estado contra a democracia — revelam um cenário em que, muitas vezes, sobra birra e falta serenidade, inclusive entre atores centrais da vida pública.

Birra, por sua vez, é a expressão da teimosia obstinada, do capricho e da reação desproporcional. É comportamento associado ao descontrole emocional, à incapacidade de ponderação e à recusa em dialogar com a realidade.

Quando a birra se sobrepõe à serenidade, a política perde sua capacidade de organizar conflitos e construir soluções. Mais preocupante ainda é quando a razão cede espaço à vontade intempestiva, descolada de uma leitura adequada das circunstâncias. Nesses momentos, abre-se caminho para decisões precipitadas, tensões desnecessárias e desajustes institucionais difíceis de conter.

Fato é que a democracia brasileira permanece profundamente influenciada pelo poder econômico. A força do dinheiro ainda desempenha papel decisivo na definição da correlação de forças no país. Poucos — ou quase ninguém — alcançam uma vaga no Congresso Nacional sem apoio financeiro relevante. No contexto do capitalismo contemporâneo, o financiamento político, em muitos casos, passa a ser tratado como investimento: quem aporta recursos frequentemente espera, de forma direta ou indireta, algum tipo de compensação futura.

Escândalos envolvendo o sistema financeiro e suas conexões com a política — como o recente caso do Banco Master, considerado por muitos como um dos mais graves do sistema financeiro brasileiro — tornam ainda mais visível uma prática que, embora pouco republicana, não é novidade no país. Percebe-se que a força financeira de seus controladores exercia influência significativa sobre decisões de setores do poder público brasileiro — especialmente entre aqueles que defendem um Estado mínimo para a sociedade, mas que, na prática, admitem um Estado máximo quando se trata da proteção de interesses específicos.

As investigações em curso sobre eventuais ilegalidades praticadas pelos responsáveis pela instituição, bem como a possibilidade de acordos de colaboração premiada, tendem a produzir instabilidade, acirrar disputas e expor fragilidades estruturais do sistema político. Em momentos assim, o que se observa, não raro, é a substituição da serenidade pela reação impulsiva — a birra ocupando o espaço que deveria ser da responsabilidade institucional.

Nada é mais perturbador, para aqueles excessivamente dependentes das engrenagens do poder, do que a incerteza. E as incertezas — especialmente em períodos pré-eleitorais — tornam o ambiente político mais tenso, mais volátil e, por vezes, menos racional. Brasília, nessas circunstâncias, deixa de ser apenas o centro das decisões e passa a refletir, de forma quase dramática, as angústias de um sistema pressionado por interesses econômicos, expectativas de poder e receios dos próprios atores políticos de perder espaço.

Tudo isso se soma ao fato de que dois projetos antagônicos disputam espaço no país. De um lado, uma visão que combina conservadorismo nos costumes com liberalismo econômico mais rígido, defendendo um Estado mínimo e maior protagonismo do mercado — frequentemente associado aos interesses do poder econômico. De outro, uma perspectiva de centro-esquerda que enxerga o Estado como agente regulador e indutor do desenvolvimento, com papel ativo na redução das desigualdades sociais. Trata-se de uma disputa estrutural, profunda, que ultrapassa governos e ciclos eleitorais e que, inevitavelmente, tensiona o equilíbrio institucional.

Porém, quando se trata de projetos antagônicos, a conciliação torna-se complexa — ou, em muitos casos, inviável. No fundo, o que está em jogo é saber qual dos lados conseguirá assegurar a hegemonia política junto à sociedade. Nessa disputa, há pouco espaço para acomodações: é a adesão dos cidadãos a um dos projetos que tende a desequilibrar o jogo. É isso, em essência, que está em curso.

E é justamente nesse embate que reside um risco sensível: quando a polarização se intensifica a ponto de reduzir o espaço do diálogo e da mediação, a própria democracia pode se tornar a principal vítima. Isso ocorre porque a lógica do confronto absoluto tende a substituir a lógica da convivência institucional, enfraquecendo compromissos básicos com regras, limites e responsabilidades. Quando adversários passam a ser vistos como inimigos a serem eliminados — e não como atores legítimos de um jogo democrático — abre-se espaço para rupturas, atalhos autoritários e decisões orientadas mais pela urgência de um projeto de poder do que pelo interesse público.

Aos defensores da democracia cabe, portanto, uma tarefa hercúlea: buscar o equilíbrio entre a vontade popular e o fortalecimento das instituições. É preciso garantir que maiorias circunstanciais não desestabilizem o próprio jogo democrático, comprometendo direitos, garantias e a continuidade das regras que sustentam a convivência republicana. Democracia não é apenas a expressão da maioria — é, sobretudo, o respeito aos limites que impedem que a maioria de hoje se converta no autoritarismo de amanhã. A experiência recente demonstra que maiorias eventuais, movidas por circunstâncias específicas, podem tensionar perigosamente as bases institucionais e, se não contidas por freios democráticos, abrir caminho para retrocessos. Não se pode perder de vista a tentativa de golpe que culminou nos trágicos episódios de 8 de janeiro de 2023.

A política exige maturidade, responsabilidade e, sobretudo, equilíbrio. Sem serenidade, o espaço público se deteriora, e o que deveria ser instrumento de mediação de interesses transforma-se em arena de impulsos e confrontos estéreis. Se a influência do poder econômico já tensiona o funcionamento da democracia, a radicalização da disputa política e a ausência de serenidade agravam ainda mais esse quadro. Preservar a democracia exige mais do que força institucional — exige compromisso com o diálogo, respeito às diferenças e capacidade de agir com responsabilidade mesmo em cenários adversos.

Cultivar a serenidade, portanto, não é sinal de fraqueza, mas condição essencial para que a política cumpra sua função maior: organizar conflitos, promover o desenvolvimento integral das pessoas, preservar o planeta e sustentar um futuro comum mais justo, inclusivo e equilibrado.

Quando a política, os políticos e agentes públicos em geral se afastam do espírito público, abre-se espaço para a captura do Estado por interesses patrimoniais. Nesse cenário, o interesse coletivo cede lugar a agendas particulares, comprometendo a legitimidade das instituições e esvaziando o sentido mais profundo da ação política. Trata-se, em última instância, da negação da própria política em seu significado etimológico: a arte de governar para o bem comum.

João Antonio é conselheiro do TCM-SP e diretor da Atricon