Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
João Antonio
O debate sobre segurança pública volta, mais uma vez, ao centro do cenário político brasileiro. Trata-se de um tema recorrente, especialmente em períodos eleitorais, quando soluções simplificadas — frequentemente associadas a discursos mais punitivistas da direita — reaparecem com forte apelo retórico, ainda que pouco sustentadas por resultados concretos ao longo do tempo.
Ainda na década de 1980, em São Paulo, esse debate já ocupava posição central nas campanhas políticas. À época, um dos principais expoentes da direita brasileira, Paulo Maluf, sintetizava a questão em slogans de grande impacto popular, como o conhecido “bandido é na cadeia, gente boa é na rua”. Décadas se passaram, e o discurso, em essência, permanece semelhante: endurecimento de leis, ampliação do encarceramento e, por vezes, a defesa de respostas mais duras como solução central para a criminalidade.
Entretanto, a realidade demonstra que tais medidas, embora de apelo popular, são insuficientes quando tratadas como solução exclusiva. Desde então, o país ampliou significativamente seu aparato repressivo: aumentaram-se os efetivos policiais, expandiu-se o sistema prisional e foram criadas guardas municipais em diversas cidades. Ainda assim, os indicadores de violência permanecem elevados, e o crime organizado atingiu níveis de sofisticação e capilaridade antes inimagináveis.
Hoje, delitos aparentemente simples — como furtos de celulares, roubos de veículos ou pequenos assaltos — frequentemente estão inseridos em cadeias estruturadas de organizações criminosas. Esses crimes alimentam mercados ilegais complexos, que envolvem receptação, lavagem de dinheiro e articulações com redes maiores, como facções e milícias. Enquanto isso, a repressão cotidiana tende a se concentrar nos elos mais frágeis dessa cadeia: jovens, em sua maioria oriundos de contextos de exclusão social, facilmente substituíveis dentro dessa engrenagem.
Esse modelo revela uma contradição estrutural. De um lado, prende-se o executor imediato; de outro, preserva-se — por ineficiência, omissão ou conivência — o núcleo organizador do crime. Grandes operadores do tráfico e de outras atividades ilícitas frequentemente permanecem à margem da repressão efetiva, circulando em ambientes de poder e influência, o que expõe a fragilidade do sistema de enfrentamento.
Isso não significa negar a importância da atuação policial. Ao contrário, a presença ostensiva do Estado é condição indispensável para a manutenção da ordem pública. Contudo, sua eficácia depende de fatores estruturais que vão além do simples aumento de efetivo. Policiais mal remunerados e submetidos a condições precárias de trabalho tendem a atuar sob tensão constante, o que pode resultar tanto em desmotivação quanto em práticas abusivas e até em desvios de conduta — fenômenos que fragilizam a legitimidade da própria ação estatal.
Além disso, o enfrentamento ao crime contemporâneo exige, cada vez mais, investimento em inteligência. É necessário mapear redes, identificar fluxos financeiros, desmontar estruturas logísticas e atingir os centros de comando das organizações criminosas. Sem isso, a repressão se torna meramente reativa e superficial.
Outro ponto crucial é o combate à corrupção interna. O crime organizado se fortalece quando encontra brechas dentro do próprio aparato estatal. A infiltração em instituições policiais e políticas não apenas compromete operações, como também corrói a confiança da sociedade nas instituições. Depurar essas estruturas é, portanto, etapa indispensável para qualquer política de segurança efetiva.
Por fim, é preciso reconhecer que a segurança pública não pode ser dissociada de políticas sociais mais amplas. A reposição constante de jovens nas fileiras do crime revela um problema estrutural: a ausência de perspectivas. Sem educação de qualidade, acesso a oportunidades e inclusão social, o ciclo tende a se perpetuar.
Em síntese, o enfrentamento da criminalidade exige uma abordagem integrada e complexa. A presença policial nas ruas é indispensável, mas, isoladamente, não resolve o problema. É necessário articular repressão qualificada, inteligência estratégica, uso intensivo de mecanismos de controle informatizados, valorização dos profissionais de segurança, combate firme à corrupção e a implementação de políticas sociais estruturantes. Persistir no discurso fácil pode até gerar aplausos imediatos — mas dificilmente produzirá os resultados consistentes que a sociedade brasileira, há décadas, espera.
João Antonio é conselheiro do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP) e diretor da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon)
*Artigo publicado originalmente no portal Brasil247, em 23 de abril de 2026