A auditoria não é a cura, mas pode ser o remédio

Inaldo da Paixão Santos Araújo

Acordei em uma madrugada insone em que a mente vagueia entre memórias, ideias e manchetes para escrever. Tenho por hábito revisitar os jornais — ainda que digitais — em busca de inspiração. E ela veio, inesperada, ao me deparar com a notícia de que o governador em exercício do Rio de Janeiro determinara, pelo Decreto de n. 50.254/2026, uma auditoria na máquina estatal.

Poucas coisas, no campo da gestão pública, me causam tão sincero alento quanto uma iniciativa dessa natureza. Talvez por uma deformação profissional, talvez por uma convicção amadurecida ao longo de mais de quatro décadas dedicadas ao controle, vejo na auditoria não apenas um instrumento técnico, mas um compromisso com a verdade.

Vivemos tempos em que a governança, a sustentabilidade, o consensualismo e a avaliação de políticas públicas ganharam espaço no discurso institucional — e isso é salutar. Mas não basta enunciá-las; é preciso dar-lhes concretude. E é justamente aí que precisamos também valorizar ainda mais as auditorias pautadas em uma “estrutura de pronunciamentos profissionais” – as Normas Brasileiras de Auditoria do Setor Público (NBASP) editadas pelo Instututo Rui Barbosa – como uma ferramenta de verificação, de controle, de diagnóstico, de correção de rumos.

O decreto em questão, ao exigir um raio-x detalhado de contratos, despesas, quantitativo de pessoal e resultados, parece caminhar nessa direção. Não se trata apenas de olhar o passado, mas de compreender o presente para melhor projetar o futuro. Ao condicionar novos gastos à existência de uma dotação orçamentária específica, por exemplo, reforça uma premissa básica, muitas vezes negligenciada: a responsabilidade fiscal não é um entrave, mas um alicerce.

Ainda assim, é preciso reconhecer, sem ingenuidade, que a auditoria não é a cura para todos os males da administração pública. Não elimina, por si só, a corrupção, nem resolve automaticamente as ineficiências estruturais. Mas é, sem dúvida, um bom remédio. E mais: quando realizada de forma preventiva, pode assumir o papel de vacina — evitando que desvios sequer ocorram.

Lembrei-me, então, de Gilberto Gil e de sua canção Aquele Abraço, quando canta que “o Rio de Janeiro continua lindo”. Continua, sim. Mas pode ficar melhor quando a beleza natural vier acompanhada de uma gestão pública igualmente admirável — transparente, eficiente e comprometida com resultados.

Que essa iniciativa não seja episódica, mas parte de uma cultura institucional que valorize o controle como um instrumento de aperfeiçoamento, e não como uma mera formalidade. Porque, ao fim e ao cabo, a boa auditoria não serve para punir, mas para prevenir; não serve para constranger, mas para construir.

E é justamente por isso que, mesmo não sendo a cura, ela pode — e deve — ser o remédio.

Inaldo da Paixão Santos Araújo é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) e presidente do Instituto Rui Barbosa (IRB)

*O artigo foi publicado no jornal A Tarde, na edição do dia 26 de maio de 2026