O que uma cidade doente pode ensinar sobre a nossa própria saúde? Foi a partir dessa e de outras reflexões, sempre permeadas por bom humor e histórias do cotidiano, que começou o terceiro e último dia do V Congresso Ambiental dos Tribunais de Contas (CATC), em São Luís. Antes mesmo da palestra, o moderador Gustavo Pereira Costa, auditor estadual de controle externo do TCE-MA, lançou uma provocação ao público: “Se pagamos por água de qualidade, estaríamos dispostos a pagar por um ar de qualidade?” A pergunta preparou o auditório para uma conversa que falou de pessoas, saúde e da forma como as cidades são pensadas.
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Professor da Faculdade de Medicina da USP e um dos maiores pesquisadores brasileiros sobre os impactos da poluição do ar, Paulo Saldiva deixou os slides de lado e preferiu conversar. Entre histórias, analogias e brincadeiras que arrancaram muitas risadas da plateia, costurou ciência, planejamento urbano e saúde pública de um jeito leve, mostrando que a educação ambiental também passa pela maneira como ocupamos e vivemos as cidades.
A analogia mais marcante veio quando descreveu São Paulo, cidade onde vive, como um organismo humano. “A cidade é como uma senhora obesa, que cresceu mais do que a estrutura consegue suportar. Ela tem aterosclerose provocada pelos trombos veiculares. Quando seca, desidrata. Quando chove, faz edema. Sofre de doenças respiratórias pelo ar ruim e, às vezes, até de um Alzheimer, quando esquece o que deu certo nas gestões anteriores”. A metáfora divertiu a plateia e ajudou a ilustrar como o planejamento urbano influencia diretamente a saúde das pessoas.
Ao longo da palestra, Saldiva lembrou que saúde e meio ambiente caminham juntos. Explicou que epidemias como a peste bubônica e a cólera mudaram a forma de planejar as cidades e defendeu políticas públicas que integrem mobilidade, ocupação do solo, qualidade do ar e espaços de convivência. “Se a cidade não for um ponto de encontro, mas um obstáculo, ela perde o significado”, afirmou ao falar sobre envelhecimento, solidão e a importância de criar ambientes que aproximem as pessoas.
Houve mais espaço para o humor. Ao contar que decidiu viajar justamente no horário de pico de São Paulo, brincou que a esposa faz uma “trombose”, ou melhor, “uma tromba enorme”, sempre que ele resolve sair de casa nesse horário. As risadas serviram de pausa para uma reflexão maior. Segundo ele, decisões sobre desenvolvimento e consumo precisam considerar seus impactos na saúde, e os tribunais de contas têm papel importante ao estimular políticas públicas baseadas em evidências e no diálogo entre diferentes áreas.
Uma mensagem de esperança
Ao encerrar a palestra, Saldiva deixou um recado otimista. Disse acreditar que as novas gerações, que já crescem com educação ambiental nas escolas, serão protagonistas das mudanças necessárias para enfrentar a crise climática. Para ele, os desafios são grandes, mas a consciência sobre seus impactos também cresce. “Quem está destruindo o meio ambiente somos nós. Mas também somos nós que podemos mudar essa realidade.”
Na sequência, o moderador Gustavo Pereira Costa relacionou a mensagem ao propósito do congresso. Segundo ele, os tribunais de contas vêm assumindo um papel cada vez mais cooperativo e educativo na indução de políticas públicas, aproximando gestores e sociedade na construção de soluções capazes de melhorar a qualidade de vida das pessoas e responder aos desafios ambientais.
V CATC
O V CATC é promovido pela Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), pelo anfitrião, Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) e pelo Instituto Rui Barbosa (IRB) e conta com a parceria estratégica da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp).
O congresso tem patrocínio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão (SEMA), da Empresa Maranhense de Administração Portuária (EMAP) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e conta com o apoio da BYD Parvi, da Agência de Desenvolvimento do Estado do Maranhão (Investe Maranhão) e Zona de Processamento de Exportação do Maranhão (ZPE Maranhão) e da BRK Ambiental.
Texto: Flávia Rezende (TCE-AM)
Fotos: Matheus Borges e Ronald Moraes
Edição: Ederson Marques (Atricon)