V CATC: Palestra final traz reflexões sobre preservação dos recursos naturais

Como conciliar o desejo humano por bem-estar e conforto à preservação de recursos naturais? A pergunta foi o ponto de partida da palestra “A Ética do Incômodo: porque salvar o planeta é uma questão moral antes de ser fiscal”, do filósofo Luiz Felipe Pondé, no encerramento, nesta quinta-feira (25), do V Congresso Ambiental dos Tribunais de Contas (CATC), realizado em São Luis (MA). E o papel dos Tribunais de Contas na mediação deste conflito, segundo Pondé, está em exercer uma soberania local para a solução de problemas pontuais.

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“O Estado, dentro do conceito mais amplo, que inclui as instituições de controle externo, tem de atuar para fazer valer o ordenamento jurídico. Uma solução seria investir em políticas públicas que cuidem do meio ambiente a partir de uma educação que pense de forma transgeracional, que se preocupe com o que será deixado para os que ainda não nasceram”, afirmou Pondé.

Filósofo Luiz Felipe Pondé

Com mediação do presidente do Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA), Daniel Brandão, o filósofo procurou, por quase uma hora, focar em conceitos mais empíricos sobre ética e o conflito dela com o que os seres humanos almejam e nos impactos que essa dicotomia causa na sociedade. “Tem ficado muito claro para mim a existência do desejo contínuo humano de que o mundo deve prover o que a gente quer e no que a gente precisa. A grande contradição moral desse tema é como desenvolver um modo de produção em que o ser humano obtenha o seu desejo, que ele considera direito, sem causar uma possível exaustão de recursos,”, destacou.

Para Pondé, será difícil convencer a humanidade, que não está disposta a abrir mão de ganhos materiais individuais de conforto, a lidar melhor com a preservação ambiental, mais coletiva. Foi neste ponto que ele abordou o tema soberania. Citou como exemplo a questão mundial recorrente entre nações ricas e pobres, um debate que ocorre em esferas internacionais sobre o direito de nações pobres poderem explorar seus recursos naturais, uma vez que países ricos se desenvolveram a partir desse mesmo tipo de exploração. “O lucro é individual, mas a conta é coletiva. É preciso resolver esse problema”, desafiou.

Pondé também tratou da relação entre ser e parecer. Argumentou que há uma discrepância entre o discurso moral adotado publicamente e as práticas individuais. Disse que, muitas vezes, as pessoas aderem a determinados posicionamentos éticos como forma de obter reconhecimento ou evitar críticas, sem que haja um compromisso real com os valores defendidos. Ao longo da exposição, defendeu que a ética verdadeira, ao contrário do que se costuma imaginar, é essencialmente desconfortável e que agir de forma ética implica frequentemente em enfrentar dilemas difíceis, contrariar interesses próprios ou coletivos e assumir as consequências dessas escolhas. “O caminho mais adequado para se resolver esse tipo de questão é a educação, mas aí estamos falando de 1,5 mil anos. Todo educador sabe que a mudança pela educação é a mais difícil”.

Luiz Felipe Pondé é um filósofo, escritor e professor brasileiro, conhecido por suas reflexões críticas sobre ética, comportamento e sociedade. Doutor em Filosofia pela USP, é autor de diversos livros voltados ao público geral, com linguagem acessível e provocativa. Destaca-se por criticar o politicamente correto e o otimismo simplista contemporâneo. Atua como colunista em jornais e comentarista na mídia. Seu pensamento costuma gerar debates e controvérsias. É reconhecido por incentivar a reflexão crítica sobre a vida moral e cultural atual.

V CATC

O V CATC é promovido pela Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), pelo anfitrião, Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) e pelo Instituto Rui Barbosa (IRB) e conta com a parceria estratégica da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp).

O congresso tem patrocínio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão (SEMA), da Empresa Maranhense de Administração Portuária (EMAP) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e conta com o apoio da BYD Parvi, da Agência de Desenvolvimento do Estado do Maranhão (Investe Maranhão) e Zona de Processamento de Exportação do Maranhão (ZPE Maranhão) e da BRK Ambiental.

Texto: Jeferson Cioatto (TCE/SC)
Foto: Fernando Fernandes
Edição: Ederson Marques (Atricon)