O Brasil entre o eu e nós

João Antonio

Desde os primórdios da filosofia política, a relação entre o indivíduo e a coletividade ocupa lugar central na compreensão da vida em sociedade. Para Aristóteles, o ser humano é, por natureza, um animal político (zoon politikon): realiza plenamente sua existência na convivência com os outros e na participação na vida da comunidade. Já Thomas Hobbes, embora reconhecesse o forte impulso de autopreservação e dos interesses individuais, sustentava que somente um pacto social e um poder comum seriam capazes de conter o conflito permanente entre os homens. Em outra direção, Jean-Jacques Rousseau afirmava que a verdadeira liberdade não reside na satisfação irrestrita da vontade individual, mas na submissão de todos à vontade geral, expressão do interesse coletivo.

Essas diferentes formulações revelam que a tensão entre o “eu” e o “nós” acompanha toda a história do pensamento político. Também por isso, Karl Marx dirigiu uma crítica contundente ao capitalismo por estimular relações marcadas pela competição, pela mercantilização da vida e pelo individualismo, enfraquecendo os vínculos de solidariedade e transformando interesses privados em referência predominante da organização social. É nesse permanente embate entre autonomia individual e responsabilidade coletiva que se insere uma das discussões mais relevantes do nosso tempo.

Definitivamente, o que move a roda da história é a expectativa. Ela nasce da capacidade humana de projetar um futuro desejado e da disposição para transformá-lo em realidade. Se ninguém perseguisse seus objetivos, o progresso perderia impulso e o próprio desenvolvimento da humanidade seria comprometido.

Quando traçamos nosso caminho, escolhemos também a forma de percorrê-lo, mas, sobretudo, definimos o ponto a que pretendemos chegar. Sem clareza sobre o destino, torna-se difícil estabelecer o percurso e dar sentido à caminhada. É o objetivo que organiza as escolhas, orienta as prioridades e sustenta a perseverança diante dos obstáculos.

O grande desafio do nosso tempo consiste em equilibrar as expectativas individuais com as necessidades coletivas. Em outras palavras, trata-se de encontrar um ponto de convergência entre o “eu” e o “nós”. Essa tensão atravessa todas as esferas da vida social: manifesta-se na economia, na política, nas relações de trabalho e até mesmo na luta cotidiana pela sobrevivência.

É justamente nesse contexto que emerge um dos debates centrais da contemporaneidade. A disputa entre diferentes projetos de sociedade pode ser compreendida como a oposição entre o individualismo competitivo e a solidariedade social.

Quando a direita enfatiza o empreendedorismo, a propriedade privada como direito quase absoluto, a livre iniciativa como expressão máxima da liberdade e a meritocracia como principal explicação para o sucesso ou o fracasso dos indivíduos, difunde uma concepção segundo a qual cada pessoa é essencialmente responsável pelo próprio destino. Nessa lógica, a competição torna-se o principal mecanismo de organização da vida social, e o êxito individual passa a ser interpretado como consequência quase exclusiva do talento, do esforço e da capacidade de competir.

Essa visão, contudo, tende a desconsiderar um aspecto elementar da realidade: os indivíduos não iniciam a corrida da vida nas mesmas condições. As profundas desigualdades de renda, de acesso à educação, à saúde, à cultura e às oportunidades produzem pontos de partida profundamente distintos. Ignorar essas diferenças significa transformar privilégios históricos em aparentes méritos individuais.

Essa compreensão repercute diretamente na concepção de Estado. Problemas como pobreza, desemprego, violência e exclusão social passam a ser vistos predominantemente como responsabilidades individuais. A violência, por exemplo, é frequentemente tratada apenas como resultado das escolhas pessoais, desconsiderando que sua incidência também guarda estreita relação com as desigualdades sociais, a ausência de oportunidades e a insuficiência de políticas públicas. Reconhecer esses fatores estruturais não significa afastar a responsabilidade individual por atos ilícitos, mas compreender que sociedades complexas exigem respostas igualmente complexas.

A perspectiva da esquerda parte de pressupostos distintos. Sem negar a importância da liberdade individual, sustenta que ela somente pode ser plenamente exercida quando acompanhada da igualdade de oportunidades. Por isso, atribui ao Estado um papel ativo na promoção da justiça social, na redução das desigualdades e na garantia de direitos fundamentais, como educação, saúde, segurança, assistência social e trabalho digno.

Nessa perspectiva, a solidariedade não representa a negação do mérito, mas o reconhecimento de que nenhuma sociedade prospera quando parcela significativa de sua população permanece excluída dos benefícios do desenvolvimento. A competição pode até estimular a inovação e a eficiência; é a solidariedade, contudo, que fortalece os vínculos sociais, amplia a coesão nacional e torna possível a construção de uma democracia efetivamente inclusiva.

Este é, em essência, o grande debate deste ano eleitoral. Mais do que escolher governantes, a sociedade brasileira será chamada a decidir qual projeto de país deseja construir para o futuro: um Brasil orientado pelo individualismo competitivo, em que o sucesso é tratado como resultado quase exclusivo do mérito pessoal, ou uma sociedade fundada na solidariedade, capaz de reconhecer as desigualdades históricas, promover a igualdade de oportunidades e assegurar que o desenvolvimento alcance a todos.

A escolha, portanto, está posta entre duas visões de mundo que historicamente dividem a direita e a esquerda. De um lado, a crença de que a competição é o principal motor do progresso e de que o êxito individual decorre, sobretudo, do mérito pessoal. De outro, a compreensão de que liberdade, justiça social e desenvolvimento são valores indissociáveis e somente se realizam plenamente quando acompanhados da igualdade de oportunidades e da solidariedade.

O futuro do Brasil dependerá da capacidade de harmonizar iniciativa individual com responsabilidade coletiva, transformando crescimento econômico em bem-estar social, mérito em oportunidade e democracia em um instrumento efetivo de promoção da dignidade humana. Afinal, nenhuma nação se torna verdadeiramente desenvolvida quando apenas alguns prosperam; ela se realiza plenamente quando o progresso alcança a sociedade como um todo.

João Antonio é conselheiro do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP) e diretor da Atricon

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