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A luneta do bom

Por Valdecir Pascoal – Conselheiro do TCE-PE

A luneta do bom

Valdecir Pascoal

      Há momentos em que é preciso deixar de lado a realidade com gosto de fel para mirar coisas mais amenas. O instinto de sobrevivência e o desejo de ver o lado positivo da vida imploram um cantinho na mente. Recorro a Simplício, personagem da obra “A Luneta Mágica”, de Joaquim M. de Macedo. A certa altura do romance, ele, míope, é levado a usar uma luneta, pela qual só enxerga o lado bom das coisas. É como se passasse a brincar o “Jogo do Contente”, criação de outra famosa protagonista, Pollyanna, que dá título ao famoso livro de Eleanor Porter. Pois bem, é com este espírito otimista que listo alguns fatos recentes que atenuam o ceticismo e renovam a fé em dias melhores.

O sertão virou mar! O mandacaru “fulorando” na seca prenunciava um bom inverno. E ele veio. Relâmpagos e trovões foram o sinal para a volta da Asa Branca, que havia migrado, como um retirante, em triste partida. Riachos correndo, açudes sangrando, cachoeiras zoando, cheiro de terra “moiada”, de mato verde, povo e natureza alegres, boa colheita, quanta riqueza.

O mar virou sertão! O mandacaru saiu dos sertões e foi florescer na adversidade do Rio de Janeiro. Aquilo que deveria ser apenas um entretenimento banal, sem maiores expectativas, amiúde criticado pela falta de conteúdo – o programa Big Brother Brasil –, acabou propiciando valiosas lições. O comportamento de alguns personagens marcou esta temporada. O vigor libertário de Gil, a força e a pedagogia civilizatória “Black Power” de João e a militância construtiva e sem arrogância de Camila.

Mas havia uma flor de mandacaru chamada Juliette, “bruta flor do querer”, filha dos Tropeiros da Borborema, que lavou a alma de boa parte da nação. O que a fez vitoriosa? A índole de querer fazer o certo. Exemplo de ética, ao fugir dos conluios de praxe; de resiliência, diante dos bullyings que sofria, justo por tentar ser coerente; de humildade, ao reconhecer seus erros e buscar o diálogo franco, tão démodé; de generosidade, em forma de empatia. A ironia é que esses atributos eram ignorados pela maioria ao seu redor. Foi preciso uma espécie de “Juízo Final” para queimar as sementes do “mal” e fazer o cacto florescer novamente. Moral: o cavalo Fortuna, que carrega a sela da Sorte, não costuma atravessar o caminho de quem não está à altura. “A prontidão é tudo” (Shakespeare, em Hamlet).

Aproveito as últimas linhas usando a boa luneta para lembrar que a quebra de patentes das vacinas contra a Covid-19 será um sinal de esperança. Hora de resgatar o espírito solidário dos povos, pois, afinal, os sinos dobram, “ubuntamente”, por todos nós.

 

Valdecir Pascoal – Conselheiro do TCE-PE

 

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