Eu cheguei aqui. Antes das avenidas largas e simétricas, antes das faveiras-de-bolotas que trazem sombras refrescantes para acalentar o calor árduo do cerrado, antes do Lago que abraça esta cidade como quem não quer mais largar. Cheguei aqui quando tudo isso era apenas sonho… e que sonho grandioso. Foi enviado, acredito que de forma divina, à mente e ao coração de um homem que acreditou quando todos ainda duvidavam.
Eu vi o vazio virar cidade.
Vi a poeira vermelha do cerrado
se transformar em asfalto, em calçada,
em passeios e passos apressados de quem chegou
e ficou… porque ficou mesmo.
Era início de 1989. O Tocantins ainda respirava os primeiros ares de estado novo, ainda trêmulo de emoção e esperança, quando José Wilson Siqueira Campos fincou os olhos no coração do Brasil e disse: é aqui. Não por acidente. Não por conveniência. Por visão. Palmas não nasceu do improviso, nasceu de uma teimosia sagrada, da recusa em aceitar que o cerrado era apenas passagem. Ele enxergou destino onde outros só viam distância. E eu estava ali, espectador ativo de cada planta urbanística aberta sobre a mesa como quem abre um mapa do tesouro. E era tesouro, sim… só que ninguém ainda sabia o tamanho daquele diamante bruto que estava sendo lapidado debaixo do sol do Tocantins.
Siqueira Campos não construiu uma capital.
Construiu uma convicção.
E convicções, quando verdadeiras,
não pedem permissão para crescer.
Palmas cresceu… Meu Deus, como cresceu. O que era quadra numerada no papel virou bairro com alma, escola com nome de herói, casas repletas de pessoas que ainda acreditam em dias melhores. As avenidas, antes desenhadas com régua e compasso, passaram a ser preenchidas de vida: de buzina, de feira, de criança correndo, de idoso sentado na sombra de um pequizeiro que não existia há trinta anos. Esta cidade aprendeu a andar rápido. E não parou mais. Hoje, vinte de maio de 2026, Palmas completa 37 anos. Trinta e sete. E eu digo isso com o peito cheio. Aquele cheio que emociona, que às vezes escapa pelos olhos antes que a gente possa segurar.
Trinta e sete anos de uma cidade que não para.
Que cresce, que evolui, que surpreende.
Que erra como toda cidade viva erra,
mas que levanta — sempre levanta.
Não me venha falar mal de Palmas. Não porque eu seja ingênuo sobre suas feridas, sei bem que toda cidade tem as suas. Mas porque eu vi esta terra ser tirada do nada com as mãos e a fé de quem acreditava. E quem viu de perto o nascimento de algo carrega esse algo dentro de si para sempre. Palmas está em mim como o cerrado está no horizonte: sempre presente, sempre vasto, sempre maior do que os olhos conseguem alcançar.
É um ciúme que não me envergonha. O ciúme de quem pertence, não ao lugar, mas ao que ele representa. Palmas não é apenas a cidade onde vivo: é a cidade que vi nascer, e isso muda tudo. É como sentir orgulho de uma filha que cresceu bonita e forte, e não tolerar que falem dela com descaso. Não por cegueira. Por amor com história.
E eu, que a vi nascer,
que caminhei no seu pó antes do asfalto,
que ouvi o silêncio que antecede a grandeza…
tenho o privilégio de testemunhar
o que muitos ainda vão descobrir:
que esta terra não foi apenas fundada.
Foi sonhada.
E sonhos com raiz não têm teto.
Esta cidade é uma ode em si mesma. É a prova de que sonhos planejados com coragem e executados com fé se tornam realidade, e realidades que duram. Palmas é jovem ainda. Tem a energia impaciente de quem sabe que o melhor está por vir.
E apesar de meu ciúme, reflito e concluo que Palmas não pertence a uma só pessoa, nem a uma só ideia. Ela pertence a cada mão que fincou estaca. A cada família que chegou com mala e esperança. É de Siqueira, de Darci, de Eduardo, de Aureny, de José, de Antônia, de Roberto, de Carlos, de Rubens, de Jamil, de Walfredo, de Luiz Fernando, de Ana, de Mary Sônia, de Moisés, de Marcelo, de Sandro, de Fenelon, de Gonçalves, de João de Deus, de Hebert, de Marilene, de João Alves, de Raimundo Boi, de Dalva, de Sevilha, de Manoel, de Napoleão, de Severiano, de Doris, de André, de Romeu, de Renê, de Roberta, de Adriana, de Cleber, de Tião, de Dhênia, de Salomão, de Dorivã, de Braguinha, de Genésio, de Maria, de João, de Pedro, de Fernando, de Orlando, de Cecília, de Tiana, de Paulo, de Mateus, de Oziel… e de incontáveis outros que a história não nomeou, mas que estão no concreto, no chão e na alma desta Capital.
Feliz aniversário, Palmas. Que os próximos 37 anos sejam tão vivos quanto os que já passaram, e muito maiores do que tudo que qualquer um de nós ainda consegue imaginar.
José Wagner Praxedes é conselheiro Decano do Tribunal de Contas do Tocantins (TCE-TO)
Artigo publicado originalmente no portal Cleber Toledo
Foto: Prefeitura de Palmas-TO