Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

II ENAPAC: Especialistas debatem temas relacionados ao controle externo brasileiro

A tarde do primeiro dia do 2º Encontro Nacional de Procuradorias, Assessorias e Consultorias dos Tribunais de Contas (ENAPAC) trouxe à tona diversos temas relacionados ao controle externo. Inteligência Artificial, Contenciosos, Licitações e fortalecimento institucional deram o tom dos debates realizados por especialistas, conselheiras e conselheiros.

A ex-ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Edilene Lobo, fez reflexões importantes sobre o uso de inteligência artificial por parte do Judiciário e da Advocacia. Segundo ela, se faz necessário hoje um acompanhamento maior no desenvolvimento dessas ferramentas e até mesmo um questionamento sobre o grau de ingerência sobre as pessoas que desenvolvem essas soluções tecnológicas. “Um estudo da UNESCO mostrou que algumas ferramentas de IA se apresentam com viés racista e até mesmo ‘aporofóbico’. Por isso, é necessária uma maior fiscalização sobre elas”, defendeu.

Edilene Lobo, inclusive, citou o Programa de Segurança Adversarial para Sistemas de Inteligência Artificial do Poder Judiciário Brasileiro (Proseg-IA), criado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para monitorar e mitigar riscos de manipulação e fraudes por comandos ocultos em processos judiciais. “Importante a realização de auditorias para aferir o resultado dessas ferramentas que, hoje, estão à disposição de todo e qualquer cidadão” afirmou.

A conselheira Flávia Gonzales Leite (TCE-MA), por sua vez, iniciou sua exposição citando Montesquieu: “Para que não haja abuso de poder, é preciso que o poder freie o poder”. A célebre frase foi a porta de entrada para o tema “Advocacia Pública como instrumento de fortalecimento institucional”

A tese central que ela destacou é de que não existe controle total sem que o controlador esteja resguardado. “A independência deve ser exercida em sua plenitude ou os Tribunais de Contas não terão como entregar o que a Constituição designa a eles”, defendeu.

A conselheira mencionou diversas iniciativas de “adversários” dos Tribunais de Contas em tentar tirar a autonomia funcional ou financeira desses órgãos de fiscalização. “Quando não se fala em tirar recursos, fala-se em formas de se minar as garantias dos conselheiros e conselheiras”, lembrou. Ao mesmo tempo, Flávia Gonzales mostrou diversas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) na garantia desses direitos.

Painel reúne conselheiros, conselheira e especialistas

Já o vice-presidente de Relações Jurídico-Institucionais da Atricon e presidente do TCE-PE, conselheiro Carlos Neves, mencionou a criação da Rede das Lideranças das Unidades Jurídicas dos Tribunais de Contas (REJUR). “Essa é a grandeza da atuação conjunta de todo um Sistema. A construção dessa Rede foi algo feito de forma orgânica pelos profissionais que atuam nessa área. E que a Atricon ajudou a consolidar. Isso dá força na atuação conjunta”, disse.

Ao finalizar sua exposição, Carlos Neves lembrou a necessidade de os Tribunais de Contas continuarem o trabalho de divulgação de seus atos e ações. “A legitimidade não vem apenas da Constituição, mas também do reconhecimento dessa legitimidade por parte da população”, alertou. “E daí a importância de todo esse trabalho ser divulgado, mostrado. É uma nova maneira de ver e ser visto”.

A desembargadora Mônica Aragão foi a presidente desta Mesa de Debate, que contou, ainda, com a participação do presidente da Associação Brasileira dos Tribunais de Contas dos Municípios (Abracom), conselheiro Nelson Pelegrino (TCM-BA).

Licitações e Contratos

O segundo painel jogou luz à Lei Federal 14.133/21, a nova lei das licitações. A professora Christiane Stroppa fez uma provocação para iniciar sua participação. Ela questionou: “O que essa lei trouxe de fato para o assessor jurídico?” A partir daí, traçou um quadro preocupante, em que os receios de se decidir faz com que ninguém decida.

De acordo com Stroppa, não se pode aceitar o que chamou de “paralisia dos gestores”. “Todos precisam entender o seu papel no processo. Todos controlam e precisam controlar em suas instâncias. Mas não se pode aceitar esse apagão”, alertou. Ao finalizar, respondeu ao próprio questionamento feito no início: “A grande novidade dessa nova lei é a gestão de risco jurídico. A assessoria jurídica passar a atuar, então, como controle interno dos atos”.

Em seguida, o advogado e mestre em Direito Econômico Ronny Charles disse que a nova Lei de Licitações deve ser usada para modernizar a sociedade, para modernizar as contratações. “A nova legislação pode ajudar a modernizar compras e contratações. Não podemos mais realizar pregões como se estivéssemos na década de 60 ou 70”, mencionou. “A cultura do pregão fez com que achássemos que o menor preço era o melhor caminho que, hoje, estamos com sérios problemas em contratações feitas por essa modalidade”.

Outro grande desafio, segundo ele, é a adesão a atas. “Alguns órgãos acabam por burlar essa modalidade que é tão interessante e veio para colaborar nessa modernização das contratações públicas”, afirmou.

Por fim, o procurador do Estado de Minas Gerais, Eduardo Grossi, falou sobre o tema “Assessoramento Jurídico Preventivo nas Contratações Públicas”. Ao citar experiências vividas durante sua carreira, mostrou dados de 2024 sobre pedidos de impugnação/esclarecimentos em editais. “71% estavam ligadas aos termos de referência. Por sua vez, 12% diziam respeito ao edital e 19% não especificaram”, indicou. Em 2025, a mesma pesquisa foi feita e os resultados apontaram: 63% sobre termos de referência; 16% ao edital; e 20% não especificaram.

Ao comentar os dados, Eduardo Grossi mostrou que esse tipo de conteúdo é parte do assessoramento jurídico. “É uma forma de participarmos do controle. É nosso papel numa segunda linha de defesa”, concluiu.

Essa última Mesa de Debate foi presidida pela consultora geral adjunta Marina Maselli.

2º ENAPAC

Consolidado como espaço de diálogo e cooperação entre as áreas jurídicas dos órgãos de controle, o 2º ENAPAC reúne procuradores, consultores e assessores jurídicos dos Tribunais de Contas brasileiros, além de membros, especialistas e representantes de instituições públicas, para debater temas estratégicos relacionados à segurança jurídica, à governança pública e ao aperfeiçoamento do controle externo.

Mais recentes

34 anos de Atricon: comemorações contam com inauguração da nova sede e referência de desenvolvimento para sociedade

Atricon reforça compromisso com a primeira infância durante o III ENAPI

Sessão Solene na Câmara dos Deputados celebra os 34 anos da Atricon

34 anos de Atricon: nova sede amplia a capacidade de atendimento ao Sistema Tribunais de Contas

TCE-BA é o primeiro Tribunal de Contas do país a instituir Processo Estrutural de Controle

Leia também

Sessão Solene na Câmara dos Deputados celebra os 34 anos da Atricon

O Plenário da Câmara dos Deputados foi espaço para sessão solene em homenagem aos 34 anos da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), na…

34 anos de Atricon: nova sede amplia a capacidade de atendimento ao Sistema Tribunais de Contas

A Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) inaugurou, nesta quarta-feira (26), dia em que completa 34 anos de história, sua nova sede em Brasília…

Atricon participa de homenagem ao ministro Jorge Messias durante evento no Piauí

O presidente da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), Edilson Silva, participou, nesta terça-feira (25), da IV Conferência Diálogos com o Futuro, em Teresina (PI). Ao final do evento, o advogado-geral da União, ministro Jorge Messias, foi agraciado com a entrega do Colar e o Diploma do Mérito Conselheiro Jesualdo Cavalcanti,