Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

Diagnóstico da saúde pública

Por Luiz Henrique Lima
Quem se interessa pela saúde pública no estado de Mato Grosso deve estudar minuciosamente os documentos divulgados no II Fórum Municípios e Soluções, promovido pelo Tribunal de Contas e que reuniu esta semana em Cuiabá mais de 600 participantes entre prefeitos, vereadores, gestores estaduais e municipais de saúde, professores universitários e lideranças sociais.

A pauta de debates incluiu temas de grande relevância como a crescente judicialização das demandas por tratamentos de saúde e o polêmico relacionamento com Organizações Sociais – e Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. Expositores de alto nível apresentaram suas visões e representantes de outros estados mostraram exemplos práticos de iniciativas que estão produzindo bons resultados e que podem ser replicadas aqui. Todo esse rico conteúdo está disponível pela internet no portal do TCE/MT.

No evento foram apresentados os principais resultados e recomendações das auditorias operacionais realizadas por equipes técnicas do TCE/MT, envolvendo a atenção básica, judicialização, central de regulação e assistência farmacêutica. Os trabalhos demandaram vários meses de pesquisa, planejamento, trabalhos de campo em todas as regiões do estado e elaboração de relatórios e resultaram num panorama abrangente e profundo que retrata com fidelidade e qualidade a realidade da saúde pública em nosso estado.

De acordo com o IDSUS, indicador desenvolvido pelo Ministério da Saúde para aferir o acesso e a qualidade do Sistema Único de Saúde, em 2012, último dado disponível, Mato Grosso ocupava a 21ª posição no ranking nacional, sendo o último colocado da Região Centro-Oeste.

Um dos sintomas das deficiências no atendimento é a crescente judicialização das demandas. Nos últimos três anos, cresceu em 14,23% o numero de ações judiciais na saúde o que impactou em um gasto maior do Poder Público, cujas despesas aumentaram em 186%. As principais consequências da judicialização dos serviços de saúde são: prejuízo à isonomia e equidade no acesso aos serviços de saúde, aumento dos custos dos atendimentos do SUS e interferência no planejamento da regulação de serviços e ações de saúde.

Com respeito à atenção básica, que é a principal porta de entrada dos usuários no SUS, a cobertura das equipes de saúde da família regrediu desde 2010. Há graves problemas no financiamento e no repasse de recursos estaduais aos municípios comprometendo a qualidade dos serviços prestados nas unidades básicas de saúde.

Também foram relevantes os achados na área da regulação, que organiza e gerencia os fluxos assistenciais e a priorização do acesso aos serviços ofertados. De acordo com o levantamento, as “filas” são enormes e demoradas: 2.841 pacientes aguardam consulta especializada, 18.756 autorização para exames e 5.309 esperam por cirurgias eletivas, com tempo médio de demora de 5, 11 e 22 meses, respectivamente. Foi constatado um déficit de 503 leitos hospitalares em MT. O Plano Diretor da Regionalização não é atualizado desde 2006. Com isso, há sobrecarga nos municípios de referência, aumento no custo do atendimento, aumento no tempo de espera e maior risco de agravamento das condições de saúde dos pacientes. As deficiências estruturais detectadas acarretam fragilidade no controle e morosidade no agendamento, com prejuízos à equidade e à impessoalidade.

No que concerne à assistência farmacêutica, verificou-se ineficiência no controle de estoques, com desperdício de medicamentos e comprometimento de sua segurança, qualidade e eficácia. O valor repassado pelo estado aos municípios é muito inferior ao mínimo pactuado gerando desabastecimento e ineficiência.

A realização do Fórum Municípios e Soluções sobre saúde pública demonstra a importância do trabalho da Corte de Contas, exercendo seu papel de fiscalização e orientação, contribuindo para o aprimoramento das políticas públicas em benefício da sociedade.

*Luiz Henrique Lima é Conselheiro Substituto do TCE-MT.
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