Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

Tocantinópolis, 168 anos

José Wagner Praxedes

Eu tinha o tamanho das coisas pequenas quando Tocantinópolis me ensinou o mundo. O mundo cabia num pequeno ribeirão que corta a cidade, na calçada quente de fim de tarde, nas verdes palmeiras do babaçual que aqui habitam, na voz de Dona Alcides me chamando para dentro antes que a noite chegasse. Foi aqui, na eterna Boa Vista do Padre João, que aprendi que existir poderia ser uma coisa leve.

Tocantinópolis é uma dessas cidades que ficam morando na gente, pagando aluguel em memória. Quem passa por ela não simplesmente passa: atravessa e sai atravessado. Carrega para sempre a beleza de seus balneários, a alegria calorosa dosmoradores, o nascer e o fim do dia: momentos em que o sol se derrama sobre o rio Tocantins.

Não é à toa que existem casas aqui que dormem quase o ano inteiro de janelas fechadas, quietas, pacientes, esperando julho. Porque julho, em Tocantinópolis, não é mês. É jubileu. É reencontro. É quando a cidade incha de gente que voltou, filhos espalhados pelo Brasil que atravessam distâncias enormes só para estar de novo no chão onde aprenderam a andar. As portas se abrem, as redes voltam aos ganchos, e a eterna Boa Vista amanhece, nesse período, cheia como coração de mãe em dia de visita.

E que amor é esse, meu Deus, que faz um povo se encontrar de madrugada para festejar uma cidade? As alvoradas rompiam o escuro com música e foguete, anunciando para quem ainda dormia que a aniversariante era ela, a cidade, a velha menina de 168 anos. Depois vinham as passeatas, o povo na rua, bandeirinha, banda, criança no ombro do pai… tudo isso no embalo do hino da cidade:

Beijando as águas Tocantinas

Na orla de um palmeiral

Está a linda Boa Vista

Sempre altaneira e sem rival

Ninguém festeja assim por obrigação. Festeja-se assim por amor antigo, desses que passam de avô pra neto junto com o sobrenome.

Eu, que vivi aqui toda a minha infância e parte da adolescência, sei do que essa terra é feita. É feita de gente que dá bom dia a desconhecido. De quintal com pé de manga que era castelo, barco, esconderijo. De um tempo que lá dentro parecia correr diferente, mais gentil com quem viveu.

Hoje, de longe ou de perto, todos os que um dia foram desta terra se voltam para cá como girassol procura sol. Parabéns, Tocantinópolis. Parabéns, eterna Boa Vista do Padre João, que o tempo rebatizou, mas não conseguiu mudar por dentro. Que teus júbilos sigam enchendo as casas vazias, que tuas alvoradas, eternizadas em nossas memórias, sigam acordando saudade, e que teu povo continue te amando desse jeito bonito.

168 anos. E eu ainda menino toda vez que penso em ti.

José Wagner Praxedes é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins (TCE-TO)

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