Sebastião Helvecio
Hoje, no aniversário da morte de Juscelino Kubitschek, presto minha homenagem àquele que considero um dos maiores políticos brasileiros.
Há algumas identificações pessoais que tornam essa homenagem ainda mais especial: JK era mineiro e médico, como eu.
E há uma pequena coincidência que sempre me encanta: Juscelino nasceu em 1902, o mesmo ano em que nasceu o Fluminense Football Club, pelo qual sou, confesso, um torcedor fanático.
Talvez sejam apenas coincidências do calendário. Mas gosto de pensar nelas como pequenas pontes que a vida constrói entre nossa história pessoal e a história maior do país.
E, no caso de JK, sua trajetória ultrapassa, em muito, essas coincidências. Foi um político de visão, coragem, diálogo, conciliação e extraordinária capacidade de transformar sonhos em realizações.
Seu governo representou um momento singular de confiança no Brasil. Era o tempo de “50 anos em 5”, da industrialização, da construção de Brasília, da integração nacional e de uma aposta decidida na modernização do país.
E há algo fascinante nesse período.
Enquanto JK construía Brasília, o Brasil também construía uma nova linguagem para apresentar-se ao mundo: a Bossa Nova.
Brasília e a Bossa Nova, embora pertencentes a universos diferentes, são expressões de um mesmo espírito brasileiro dos anos 1950: modernidade, criatividade, inovação, ousadia e confiança no futuro.
De um lado, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa desenhavam uma arquitetura que rompia com o passado. De outro, João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e tantos outros criavam uma música que também rompia com padrões estabelecidos.
Era um Brasil que queria ser moderno sem deixar de ser brasileiro.
Talvez seja esse o aspecto de JK que mais me inspira.
Ele não fazia da dificuldade uma justificativa para a inação. Ao contrário: quanto maior o desafio, maior parecia ser sua disposição para realizá-lo.
Como médico, aprendi que não basta diagnosticar problemas: é preciso buscar soluções. Como mineiro, reconheço em JK a capacidade de conciliar firmeza e diálogo. E como alguém que acredita na vida pública, vejo nele a demonstração de que política pode ser também esperança, construção e visão de futuro.
Hoje, em um tempo de tanta polarização, intolerância e imediatismo, lembrar Juscelino é lembrar que o Brasil já teve líderes capazes de dizer, diante das dificuldades:
é possível fazer mais; é possível fazer melhor; é possível acreditar no futuro.
Meu tributo ao mineiro, ao médico e ao estadista que ousou sonhar um Brasil maior.
JK não apenas governou o Brasil.
Ele ajudou o Brasil a acreditar em si mesmo.
A Bossa Nova foi o sonho brasileiro transformado em música.
Música, para mim, é o som do pensamento.
E talvez seja justamente por isso que, ao olhar para o Brasil de hoje, não possamos deixar de pensar na importância deste ano eleitoral.
Quando constatamos quantos ainda agridem a democracia com pensamentos autoritários e tentativas de aniquilá-la, percebemos que a escolha que teremos pela frente é muito maior do que uma disputa eleitoral.
É uma escolha sobre que país queremos ser.
Que possa prevalecer a inteligência humana sobre o ódio, a razão sobre o negacionismo, o diálogo sobre a intolerância e o respeito ao diferente sobre qualquer tentativa de aniquilar aquele que pensa de outra maneira.
Que o Brasil de JK — o Brasil que ousou sonhar, construir e inovar — possa continuar acreditando em seu futuro.
E que, neste tempo de tanta transformação, a inteligência humana ainda seja capaz de fazer da política não o som do ódio, mas a música da democracia.
Sebastião Helvécio é médico e conselheiro emérito do TCE-MG
Artigo originalmente publicado no Diário de Minas em 23.08.2026