Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

Para “Inglês” ler?

A expressão “para inglês ver” pode ser definida como ação ou efeito apenas de aparência, sem lastro na realidade. Teorias a parte, o consenso diz que o ditado surgiu no período imperial, quando, por pressão da Inglaterra, em defesa de sua economia e de ideias iluministas, o Brasil adotou uma série de medidas contra o tráfico de escravos, culminando com a aprovação da Lei Feijó (1831), que proibiu tal comércio. Na prática, porém, o Brasil continuava a fazer vistas grossas e o tráfico perdurou por muito mais tempo, daí se dizer que a lei e as ações seriam apenas “para inglês ver”.

Lembrei desta expressão ao me deparar, nos últimos dias, com dois fatos de grande importância para o nosso futuro.

Primeiro, a Carta enviada pelo Secretário-Geral da OCDE, Mathias Cormann, ao governo brasileiro, iniciando o processo de discussão do ingresso do país naquela organização. Embora o Brasil mantenha relações com a OCDE desde os anos 90, ampliadas em 2007, há quem discorde da sua adesão formal a esse órgão, por entender que o pacote de boas práticas defendido por ele não se adequa, como um todo, às estratégias e singularidades do Brasil, que também perderia prerrogativas junto à OMC. Ninguém ignora, contudo, que há um núcleo de diretrizes propostas pela entidade que proclamam verdadeiros pilares para o desenvolvimento econômico e o bem-estar social de qualquer país que deseje trilhar a estrada civilizatória: liberdade, democracia, combate à pobreza, defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e do estado de direito, independência e fortalecimento dos órgãos de controle, transparência e combate à corrupção. Na Carta, o Secretário chega a enumerar alguns desses pontos como os principais desafios para a aprovação final da adesão.

Foi no mesmo contexto que surgiu o segundo fato: a divulgação dos Relatórios da “Transparência Internacional” sobre o novo  IPC – Índice de Percepção de Corrupção e a Retrospectiva 2021. O Brasil caiu duas posições e agora ocupa o 96º lugar entre os 180 avaliados. O balde de água fria se transforma em desalento, após a leitura da íntegra dos relatórios – ler em: https://bit.ly/3s7oFG4. Neles, há uma descrição minuciosa que evidencia, a partir de dados e fatos, a deterioração da maior parte dos indicadores que compõem justamente aqueles alicerces exigidos pela OCDE.

O Governo respondeu à Carta afirmando que está na trilha certa para cumprir todos os 251 requisitos para o ingresso (hoje, cumpre 103). A sensação, porém, é de descaminhos. É quase certo que cartas já não adiantam mais… nem “para inglês ler”.

Mais recentes

Diretor Edilberto Pontes representa a Atricon em Congresso da ABDE, no Rio

Rede Integrar promove webinário para apresentação das propostas de ações do PAT 2027

Tribunais de Contas têm até 30 de outubro para aderir às ações da Rede Integrar

Atricon — Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Portaria 66/2026

Atricon — Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Portaria Conjunta Atricon – IRB nº 06/2026

Leia também

Dívida Pública: ponto preocupante que merece atenção dos Tribunais de Contas

Omar Pires Dias é conselheiro do TCE-RO

Waldir Pires, a COAPAJ e a dívida histórica da Bahia com o controle interno

Inaldo Araújo é presidente do Instituto Rui Barbosa (IRB)

Administração Pública: o elo mais frágil da licitação.

Marco Aurélio Bertaiolli é conselheiro do TCE-SP Robert Werner Koller é chefe de Gabinete do Conselheiro Marco Aurélio Bertaiolli, do TCE-SP