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Agenda do Controle

A nona sinfonia brasileira

Marcelo Barros Gomes

Na noite de 7 de maio de 1824, no Kärntnertortheater de Viena, Ludwig van Beethoven, profundamente surdo aos 53 anos, esteve ao lado do maestro Michael Umlauf durante a estreia de sua Nona Sinfonia. Quando os últimos acordes ecoaram, ele permaneceu de costas para a plateia, absorto na partitura que não podia ouvir. A contralto Caroline Unger virou-o delicadamente para que visse a ovação, os lenços brancos agitados, as lágrimas.

Beethoven havia provado o impossível: cem músicos, oitenta coristas, quatro solistas e dois regentes criaram harmonia perfeita. E mais: integrou pela primeira vez vozes humanas à orquestra instrumental, quebrando fronteiras intransponíveis. Foi declaração política nos  versos de Schiller: “Alle Menschen werden Brüder” (Todos os homens se tornam irmãos). Coordenação entre vozes diversas não era mais utopia – era trabalho realizado.

Duzentos anos depois, a Nona permanece símbolo político. Em 1972, o Conselho da Europa a adotou como hino. Em 1985, a Comunidade Econômica Europeia fez o mesmo. Em 1989, Leonard Bernstein regeu orquestras de seis nações inimigas após a queda do Muro de Berlim. Quando nações decidem superar a fragmentação, escolhem Beethoven.

E o Brasil? Estamos a duzentos dias de eleições excepcionalmente estratégicas. Em 4 de outubro de 2026, escolheremos presidente, vinte e sete governadores, dois terços do Senado Federal e todos os demais legislativos. Será nossa décima eleição presidencial direta desde 1989. Nove já foram realizadas. Nove tentativas de harmonizar União, estados e municípios. Nove sinfonias ainda inacabadas. Não tanto por falta de talento, mas pela ausência do paradigma que Beethoven ousou: integrar o que sempre esteve separado.

SEIS QUEBRAS DE MODELOS MENTAIS DE BEETHOVEN

Primeira: Duração sem precedentes. Sinfonias duravam quarenta minutos. A Nona de Beethoven dura setenta. Desenvolvimento pleno não se constrói em quatro anos. Alfabetizar exige dezesseis anos de coordenação federativa. Universalizar saneamento exige trinta. Nosso problema não é falta de ambição – é impaciência institucional que desperdiça esforços a cada ciclo eleitoral.

Segunda: Integração de vozes. Beethoven aboliu a fronteira entre sinfonia instrumental e coral de vozes. Mantemos fronteiras análogas em nossas políticas públicas: cacofonias institucionais dentro das administrações públicas, entre governo federal isolado e estados desarticulados, entre cidadãos passivos e gestores autorreferidos, entre legislativos estaduais e federal descoordenados. Quando presidente, governadores e dois terços do Senado são eleitos simultaneamente, com um razoável legado institucional acumulado, criam-se condições para pactos federativos permanentes. Mas apenas se estruturarmos centros de governo integrados e efetivos nos três níveis federativos.

Terceira: Complexidade coordenada. A Nona exige cento e oitenta e cinco pessoas sincronizadas. A Governança brasileira coordena uma Presidência, em média trinta ministérios, vinte e sete governos estaduais, mais de cinco mil municípios, duzentos e quinze milhões de cidadãos. E tentamos nos orquestrar com estruturas improvisadas, descontinuadas a cada quatro anos, sem memória institucional mapeada e consolidada. É como reger sem partitura compartilhada, trocando maestro e orquestra a cada apresentação.

Quarta: Mensagem universalista. O “Ode à Alegria” proclamava fraternidade universal em continente recém-saído de guerras. A Constituição de 1988 estabeleceu objetivos que permanecem aspirações: construir sociedade justa, garantir desenvolvimento, erradicar pobreza e reduzir desigualdades. Não por falha constitucional, mas por falta de liderança e coordenação que transforme aspirações em políticas, políticas em ações, ações em resultados verificáveis nos três níveis federativos.

Quinta: Criação de nova forma. Antes da Nona, existiam gêneros separados. Depois, nasceu a sinfonia coral. Se estruturarmos Centros de Governo permanentes federais e estaduais que coordenem políticas dentro do governo e entre governos, participação cidadã e parceria com mercados, criaremos modelo novo de governança federativa que pode inspirar outras democracias multinível globais.

Sexta: Da tragédia à estratégia. A surdez de Beethoven foi devastadora – cartas revelam desespero profundo, pensamentos suicidas. Diante da tragédia involuntária, desenvolveu resposta extraordinária: ensurdeceu para ruídos externos – conversas banais, críticas mesquinhas – e focou-se em audição interior, sintetizando trezentos anos de evolução musical. O Brasil país precisa conscientemente ensurdecer para vozes derrotistas que proclamam “federalismo cooperativo nunca funcionará”, para “nunca superaremos a competição predatória entre estados via guerra fiscal”, para  todas as críticas que desconstroem sem reconstruir. E amplificar a audição para lições das nove eleições e mandatos anteriores, novo contexto global, evidências científicas, participação cidadã construtiva.

NOVE ELEIÇÕES, NOVE OBRAS INACABADAS – E TRÊS TRANSFORMAÇÕES QUE TORNAM COORDENAÇÃO IMPERATIVA

Nove eleições brasileiras entre 1989 e 2022, qual o legado institucional? Avanços ocorreram de forma indubitável em diversos setores e aspectos da vida nacional, mas nenhum suficientemente capaz de manter o crescimento e a inclusão sustentáveis. A fragmentação persistente, a descontinuidade administrativa, a ausência de coordenação transversal conduzem ao baixo impacto de políticas e ações públicas, se comparados com o progresso de outras nações no mesmo período.

Além de desafios históricos, três transformações estruturais convergem em 2026, tornando a coordenação entre União, estados e municípios imperativa para sobrevivência fiscal:

Reforma Tributária sobre Consumo: A implementação da reforma tributária, com o grande mérito de simplificação e mais justiça tributária, deverá reduzir ou estagnar a arrecadação estadual e margens para incentivos fiscais tradicionais. Governadores eleitos precisarão desenvolver novos vetores de competitividade – qualidade regulatória, infraestrutura, capital humano – que só se constroem através de coordenação permanente dentro dos governos, entre governos congêneres e principalmente com o governo federal.

Pressões Fiscais Crescentes: Demanda por serviços públicos contrasta brutalmente com restrições da Lei de Responsabilidade Fiscal e da boa disciplina fiscal. A capacidade de investimento direto de estados está cada vez mais limitada, tornando imperativa a coordenação para maximizar eficiência, eliminar duplicações, compartilhar infraestruturas.

Modernização Institucional: Transição para parcerias público-privadas representa mudança de modelo orientado a resultados mensuráveis. PPPs bem desenhadas liberam recursos para políticas sociais prioritárias. Mas exigem segurança jurídica federal, marcos estaduais alinhados e coordenação entre níveis de governo.

2026: JANELA ÚNICA DE OPORTUNIDADE PARA INTEGRAR A FEDERAÇÃO ANTES QUE MOMENTOS CRÍTICOS IRREVERSÍVEIS OCORRAM

Por que estas eleições são historicamente estratégicas? Pela magnitude da renovação simultânea, pelo aprendizado consolidado nas instituições nacionais e pela convergência de janelas críticas: demográfica (até 2041), ambiental (até 2035), digital (até 2031). Este próximo será o último mandato inteiro dentro dessas janelas simultaneamente.

Pela primeira vez compreendemos que desenvolvimento exige integração de quatro vozes essenciais – não apenas em nível federal, mas coordenadas entre União, estados e municípios:

Governo efetivo: Centros de Governo permanentes nos três níveis federativos que coordenam ministérios, secretarias, agências e órgãos públicos, e criam canais de diálogo com cidadãos, parceria com mercados e articulação entre níveis federativos.

Cidadãos participativos: Participação genuína significa conselhos que funcionam, transparência radical com dashboards públicos, co-criação de políticas desde diagnóstico até avaliação nos três níveis federativos.

Mercados competitivos: Funcionam bem apenas com harmonização regulatória entre níveis federativos. Estados que competem via guerra fiscal empobrecem-se mutuamente. Estados que coordenam prosperam juntos. Governadores eleitos precisam firmar pacto de não agressão fiscal, criar ambiente regulatório previsível, estruturar PPPs com segurança jurídica.

Mundo cooperativo: Inserção estratégica não é apenas federal. Estados negociam investimentos. Quando cada um negocia isoladamente, perdem poder de barganha. Quando coordenam através de federação, conquistam pela excelência. Acessão à OCDE, caminho crítico para o desenvolvimento sustentável nacional, exige que estados e municípios também se alinhem com padrões internacionais de governança.

CENTROS DE GOVERNO: ARQUITETURA DA COORDENAÇÃO EFETIVA

Coordenação não é boa vontade nem improviso – é arquitetura institucional. Centros de Governo efetivos nos três níveis federativos são a infraestrutura invisível que transforma intenções em realizações.

Um Centro de Governo robusto precisa de quatro pilares essenciais que garantem coerência sistêmica e resultados verificáveis:

Coerência estratégica: Tradução das prioridades presidenciais democraticamente eleitas em metas específicas, indicadores chave de performance (KPIs) mensuráveis, prazos realistas e orçamento adequado. Definição clara de ministério ou secretaria líder e órgãos de apoio para cada prioridade transversal, eliminando duplicações e conflitos de competência.

Capacidade de monitoramento contínuo: Sistemas integrados de dados que permitam acompanhamento em tempo real de execução orçamentária, entregas físicas e indicadores de desempenho. Reuniões estruturadas de monitoramento com periodicidade definida, pauta objetiva e registro de decisões que responsabilizam os gestores.

Mecanismos de desobstrução: Grupos de Trabalho Interministeriais com poder efetivo de resolver gargalos normativos, orçamentários, logísticos e políticos. Articulação federativa permanente quando políticas dependem de coordenação entre União, estados e municípios. Articulação legislativa estratégica para tramitação de projetos prioritários.

Cultura de resultados e accountability: Prestação de contas regular não apenas sobre processos, mas sobre entregas concretas para cidadãos. Dashboards públicos acessíveis que permitam controle social efetivo. Consequências claras – positivas e negativas – vinculadas ao cumprimento ou não de metas pactuadas.

Esses elementos não são ornamentais. São diferenças entre governo que anuncia e governo que entrega. Entre fragmentação que paralisa e coordenação que multiplica resultados.

O PAPEL DO 3IPÊS: FORMANDO OS MAESTROS DA COORDENAÇÃO E OS OPERADORES DA ORQUESTRA GOVERNAMENTAL

Beethoven estudou composição intensamente com Joseph Haydn e outros mestres. Líderes políticos e gestores estratégicos em regra chegam ao poder com experiência eleitoral e, eventualmente, com algum conhecimento setorial, mas raramente com competências em coordenação e gestão de sistemas complexos.

O Instituto Internacional de Inovação em Políticas Públicas e Soluções (3Ipês) foi criado para também preencher essa lacuna crítica. Com ofertas de  programas intensivos de formação e mentorias, o 3Ipês prepara os “maestros” da coordenação pública  e os executores das orquestras governamentais – não apenas para Brasília, mas para as vinte e sete capitais estaduais e municípios estratégicos.

O 3Ipês oferece:

Formação executiva para candidatos e equipes de transição: Programas de seis meses focados em arquitetura de Centros de Governo, governança por indicadores de desempenho (KPI), monitoramento baseado em evidências, articulação interfederativa, gestão de parcerias público-privadas e cultura de resultados.

Laboratórios de melhores práticas: Sistematização e disseminação de experiências bem-sucedidas de coordenação governamental no Brasil e no mundo. Estudos de caso nacionais  e experiências práticas internacionais de funções de governo, como  Delivery Units.

Assessoria técnica para estruturação institucional: Apoio direto a governos federais e estaduais na concepção, implantação e operacionalização de Centros de Governo permanentes, incluindo desenho organizacional, definição de processos, seleção de indicadores e capacitação de equipes.

Rede de aprendizado entre pares: Conexão de lideranças governamentais federais e estaduais e com organismos multilaterais para troca de experiências, resolução colaborativa de problemas comuns e construção de comunidade de prática em políticas, governança e gestão pública de excelência.

Investir em formar líderes federais e estaduais que sabem coordenar é mais decisivo que investir em campanhas publicitárias, para transformações de alto valor público. Porque a coordenação efetiva determina se promessas eleitorais se tornam políticas públicas, se políticas se tornam ações e se ações geram resultados que mudam a vida dos cidadãos e de territórios inteiros, de forma sustentável e inclusiva.

APRENDIZADOS PRÁTICOS

Os sessenta e oito dias entre eleição e posse não são férias sabáticas – são ensaio geral. Transições profissionais em Brasília e capitais determinam sucesso mais que carisma. Presidente e governadores eleitos que investem em transições rigorosas – diagnóstico situacional completo, definição clara de prioridades, estruturação antecipada de governança, nomeação de núcleos estratégicos preparados – constroem bases para entregas nos primeiros duzentos dias.

Memória institucional vale mais que genialidade individual. Centros de Governo federal e estaduais precisam de núcleos técnicos permanentes de servidores de carreira que garantem continuidade através de transições, preservam conhecimento acumulado, mantêm sistemas de monitoramento funcionando e asseguram que os aprendizados não se percam a cada mudança de governo.

Transparência fortalece. Transparência radical é revolucionária. Governos que publicam dashboards públicos atualizados, prestam contas trimestralmente em audiências públicas, reconhecem erros e explicam correções – não enfraquecem autoridade, fortalecem legitimidade democrática. Cidadãos confiam mais em gestores transparentes que admitem dificuldades que em gestores opacos que fingem perfeição.

O IMPERATIVO DE 2026

Faltam duzentos dias para partidos formarem líderes federais e estaduais que sabem coordenar com base em programas estruturados. Para candidatos a presidente: apresentar como coordenariam com governadores, os cronogramas detalhados de Centro de Governo com todas suas funções e estruturas detalhadas e com equipes capacitadas. Para candidatos a governador: apresentar como coordenarão as equipes do seu governo para as entregas prioritárias do mandato, com governo federal e outros estados, estrutura de Casa Civil e outras secretarias-chave preparadas para coordenação dentro do governo e interfederativa.

Para candidatos a senador e deputados federais e estaduais: comprometer-se com aprovação de marcos legais que institucionalizam coordenação permanente, transformando Centros de Governo em estruturas de Estado que transcendam governos. Para eleitores: escolher com base em capacidade demonstrada de coordenar e fazer entregas transformadoras, não apenas promessas ou carisma pessoal.

CONCLUSÃO

Em 7 de maio de 1824, Beethoven provou que cento e oitenta e cinco pessoas podiam criar harmonia perfeita. Porque entendeu: coordenação de vozes diversas não é utopia – é arquitetura. Não é milagre – é disciplina. Não é acaso – é trabalho persistente.

Duzentos anos depois, a Europa aplicou essa lição. O Brasil, em 2026, pode finalmente aprender. Nove eleições ainda não foram suficientes – mas a décima pode ser diferente pela magnitude da renovação e pelo aprendizado acumulado: presidente, vinte e sete governadores, dois terços do Senado, todos os legislativos. Convergência que não se repetirá.

Embora a surdez de Beethoven fosse uma tragédia involuntária, sua resposta nos ensina: podemos conscientemente ensurdecer para competição predatória entre estados, fragmentação corporativista, derrotismo crônico. E amplificar a audição para experiências bem-sucedidas, evidências científicas, novo contexto global.

Se integrarmos as quatro vozes – governos federal e estaduais coordenando transversalmente através de Centros de Governo robustos, cidadãos fiscalizando em todos os territórios, mercados inovando em ambiente previsível, inserção internacional coordenada – todas as instituições funcionarão como componentes de orquestra nacional harmonizada. E fazemos isso sabendo que reforma tributária, pressões fiscais e modernização via PPPs tornam a coordenação ainda mais urgente.

Faltam duzentos dias para decidir. Beethoven, surdo, participou da estreia sem ouvir uma nota. Mas acreditava na possibilidade de coordenação perfeita.

O país pode criar sua própria Nona Sinfonia – não de música, mas de governança da administração pública como um todo e interfederativa, multinível. Precisamos ensurdecer as vozes que não servem ao bem comum e amplificar a audição para nosso destino de federação desenvolvida. Precisamos decidir que desta vez será diferente. Que desta vez aprenderemos – União, estados e municípios juntos. Que desta vez integraremos. Que desta vez completaremos a obra inacabada do desenvolvimento nacional.

A escolha é nossa. A responsabilidade é compartilhada. O momento é agora.

Que assim seja.

Marcelo Barros Gomes é diretor acadêmico do Instituto 3Ipês

*Esta analogia entre a Nona Sinfonia e a arquitetura de um bom governo é homenagem à professora Joseles Salviano. Durante quinze anos ao piano, ela me ensinou que beleza não é acaso, é triunfo da disciplina sobre técnica, é o florescer da inspiração de fundamentos pacientemente lapidados. A política, tal qual a música, alcança harmonia quando ancorada na disciplina do bem-fazer e na sabedoria que transforma.

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