Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

O mercado como fé e o poder como negócio

João Antonio

Fico aqui a pensar: o dinheiro talvez tenha sido uma das invenções mais revolucionárias da humanidade — para o bem e para o mal. A história da cunhagem das moedas representa um marco decisivo da organização econômica das civilizações.

Antes delas, predominava o escambo, um sistema limitado pelas dificuldades naturais de equivalência entre produtos. Com a expansão do comércio, surgiram formas primitivas de valor, como sal, metais e pedras preciosas. A cunhagem propriamente dita nasceu por volta do século VII a.C., na região da Lydia, onde passaram a circular moedas metálicas padronizadas em ouro e prata, com símbolos que garantiam autenticidade e confiança. A inovação espalhou-se pelo mundo mediterrâneo, tornando-se essencial para o comércio, a tributação e a consolidação do poder político.

Mas a moeda nunca foi apenas um instrumento econômico. Ela também moldou valores, comportamentos e formas de organização social. Se, por um lado, permitiu a ampliação das trocas e aproximou povos e culturas, por outro incentivou a ambição humana e aprofundou a corrida incessante pela acumulação material. Talvez esteja aí uma das raízes do individualismo competitivo tão celebrado por setores liberais e, nos tempos contemporâneos, frequentemente abençoado por parcelas expressivas do neopentecostalismo. A lógica é simples: transformar o sucesso econômico em medida absoluta de mérito e virtude. O poder deixa de ser instrumento de organização coletiva para tornar-se mecanismo de concentração de riqueza e privilégios.

Faço essa introdução para chegar ao caso do Banco Master, hoje envolto em um escândalo que movimenta a política brasileira. Não me surpreendem certos gestos de proximidade entre agentes políticos liberais e setores financeiros. Eles compartilham, em grande medida, a mesma visão de mundo: a supremacia da livre iniciativa como valor quase absoluto, a sacralização da propriedade privada e a meritocracia apresentada como consequência exclusiva do esforço individual. Nessa lógica, a desigualdade deixa de ser compreendida como problema estrutural e passa a ser interpretada como fracasso pessoal dos que ficaram para trás.

Quem pensa assim costuma enxergar a solidariedade como um valor secundário. Mas solidariedade não é fraqueza moral; é exatamente o contrário. É reconhecer a vulnerabilidade do outro e compreender que nenhuma sociedade se sustenta apenas pela competição permanente entre indivíduos. Solidariedade é empatia transformada em ação concreta. É ela que fortalece os laços sociais, cria redes de proteção e dá sentido coletivo à ideia de comunidade. O individualismo competitivo, ao contrário, estimula a lógica segundo a qual cada um deve salvar apenas a si mesmo e aos seus mais próximos.

No universo ultraliberal, quase sempre prevalece a defesa dos próprios interesses, ainda que travestida de discurso moderno ou meritocrático. Quando determinados setores se aproximam dos excluídos, muitas vezes o fazem apenas como estratégia retórica — uma maneira eficiente de instrumentalizar a pobreza enquanto mantêm o poder concentrado nas mãos das elites econômicas. O escândalo do Banco Master, ao meu sentir, insere-se justamente nesse contexto mais amplo: o da captura do Estado por interesses privados disfarçados de racionalidade econômica.

Por isso, não surpreendem os movimentos de aproximação política envolvendo figuras públicas de orientação liberal e setores financeiros ligados ao caso. Há entre eles uma linguagem comum, símbolos compartilhados e trânsito confortável no mesmo ambiente ideológico. Compartilham, em grande medida, uma concepção de sociedade que transforma o mercado no eixo organizador da vida social e reduz a política à administração dos interesses econômicos dominantes.

Em termos mais diretos: os pedidos de dinheiro feitos por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro não podem ser interpretados como um gesto isolado ou meramente circunstancial. Expressam, antes, uma afinidade estrutural de visão de mundo: a que transforma o poder político e o poder econômico em instrumentos complementares de preservação de privilégios e acumulação de riqueza.

João Antonio é conselheiro do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP) e diretor da Atricon

*Artigo publicado originalmente no portal Brasil 247

Foto: ABr | Reuters

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