Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

Dos Canaviais ao Tribunal: uma travessia pessoal

Josias Gomes

O meu colega e polímata Inaldo da Paixão pediu que eu escrevesse sobre os meus passos desde a infância até os dias atuais.

Esse pedido surgiu a partir do texto publicado aqui neste espaço em 11/05/2026, onde escrevi sobre minhas impressões dos três primeiros meses no Tribunal de Contas. O título fazia referência aos canaviais e ao Tribunal, embora praticamente não tratasse do que aconteceu entre um ponto e outro dessa travessia.

O que despertou a curiosidade de Inaldo talvez tenha sido exatamente o contraste entre estes dois mundos: o menino que nasceu entre canaviais, barracões e casas de engenho, e o homem que hoje ocupa o honroso cargo de Conselheiro do TCE/BA.

Entre um ponto e outro existe uma longa travessia: os engenhos da infância, os internatos em colégios agrícolas, o movimento estudantil, as lutas políticas, o sindicalismo, o parlamento, os embates da vida pública e, agora, essa experiência nova e desafiadora no Tribunal.

De maneira muito resumida, tudo começou no Engenho Estiva, onde nasci, em 1956. Meu pai era um “curumba”, como eram chamados os sertanejos que migravam do agreste e do sertão pernambucano para a zona da mata durante o período da colheita da cana-de-açúcar.

Quando nasci, meu pai já havia ascendido à condição de administrador de engenho, mas sua origem era exatamente aquela: a dos homens que deixavam o sertão em busca de sustento nos canaviais.

Minha mãe era filha de um operário da Usina União e Indústria — proprietária do engenho onde nasci. Meu avô materno era sindicalista e atuava no sindicato dos operários da indústria do açúcar de Pernambuco. Assim, cresci entre dois mundos profundamente ligados ao trabalho: o dos trabalhadores rurais do corte da cana e o dos operários da usina.

Ainda menino, cresci observando o esforço cotidiano daqueles homens que pareciam condenados a uma vida sem perspectivas. Mas o que mais me marcou não foi apenas a dureza material daquela existência. Foi, sobretudo, a dignidade silenciosa daquele povo.

No início dos anos 1960, mudamo-nos para o Engenho Garra, mais próximo da cidade de Amaraji. Pela proximidade com a cidade, passei a estudar no Grupo Escolar Dom Luís de Brito, onde cursei o primário.

Foi nesse período que comecei a perceber, ainda de forma intuitiva, a estrutura profundamente desigual da sociedade da zona da mata pernambucana.

A concentração de terras era impressionante! Ali, o destino de muitos parecia traçado antes mesmo do nascimento. Nascia-se, quase sempre, para repetir o caminho dos pais: trabalhador rural, cortador de cana, homem da enxada. Uma continuidade histórica que lembrava, em muitos aspectos, a lógica social perversa do período escravocrata.

Hoje compreendo que aquela infância me permitiu enxergar, ainda que de maneira embrionária, a existência de muitos Brasis dentro do Brasil.

Mas uma convicção começou a nascer cedo dentro de mim: a educação pública poderia ser a ponte da minha travessia. Nunca estudei em escola particular. Minha família não teria condições de pagar. Toda a minha formação foi construída em escola pública. E foi exatamente ela que começou a abrir os caminhos da minha vida. As escolas, os internatos e a Universidade Pública foram me moldando. Foi naquele ambiente da educação pública que comecei a desenvolver uma consciência crítica sobre a realidade brasileira.

Vivíamos os anos da ditadura militar. As liberdades políticas eram limitadas e o ambiente de vigilância era permanente. Em 1977, ingressei na Universidade Federal da Paraíba para cursar Agronomia. Ali se consolidou minha formação intelectual, política e humana. A antiga Escola de Agronomia do Nordeste — uma das mais tradicionais do país — teve uma enorme importância na minha trajetória. Tornei-me dirigente estudantil na Faculdade.

Foi naquele ambiente universitário que comecei a compreender, de maneira mais estruturada, o Brasil, suas desigualdades, seus conflitos sociais e as possibilidades de transformação política e social.

O jovem que saíra dos canaviais começava, enfim, a encontrar seu lugar no mundo. Depois de formado, voltei para trabalhar justamente na mesma usina que havia marcado a trajetória da minha família. Talvez exista aí uma das passagens mais simbólicas da minha caminhada. Meu pai começou como cortador de cana. Meu avô materno foi operário da usina e exercia a liderança sindical. E eu me tornei Agrônomo daquela mesma empresa. Três gerações diferentes, todas ligadas ao mesmo universo do trabalho canavieiro.

Mas minha estada naquela Usina foi rápida. Logo segui para Rondônia. Lá participei, em 1983, da reorganização do Partido dos Trabalhadores. Fundamos o Sindicato dos Engenheiros de Rondônia, do qual fui o primeiro presidente. Também participamos da fundação da CUT no estado.

Porém minha ligação afetiva, cultural e política com o Nordeste continuava muito forte. Em 1989, retornei ao Nordeste e me estabeleci na região cacaueira da Bahia, vivendo em Itabuna durante 18 anos, onde nasceram meus dois filhos. Foi um período intenso de construção política, sindical e social.

Em 1992, sob a liderança de Geraldo Simões na Prefeitura de Itabuna, exerci o cargo de secretário de Assuntos Estratégicos. Foi uma experiência administrativa e política extremamente rica. Fizemos história numa região que, durante décadas, esteve sob forte influência dos coronéis do cacau.

Na sequência, fui eleito para exercer dois mandatos como presidente estadual do PT, em 1999 e 2001. Em 2002, fui eleito deputado federal, cargo que exerci com afinco por cinco mandatos consecutivos.

Também atuei no Governo da Bahia como secretário de Relações Institucionais e secretário de Desenvolvimento Rural.

Em 2007, mudei-me de Itabuna para Salvador. E foi já numa nova etapa da vida pública que, em 2025, surgiu a oportunidade de integrar o Tribunal de Contas do Estado. Apresentei meu nome, fui indicado pelo Governador e aprovado para assumir o cargo de Conselheiro.

E aqui estou! Muito honrado pela missão e profundamente grato pela travessia vivida. Porque, no fundo, essa história não fala apenas de uma trajetória individual. Fala da força da educação pública, da organização popular, da luta coletiva e da capacidade que a vida possui de abrir caminhos improváveis.

Dos canaviais da zona da mata pernambucana ao TCE existe não apenas uma caminhada pessoal, mas também um pedaço da história social e política de toda uma geração.

Josias Gomes é conselheiro-ouvidor do Tribunal de Contas do Estado da Bahia

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