Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

Reflexões a partir do Relatório do Imposto de Renda

O recente relatório sobre a distribuição pessoal da renda e da riqueza da população brasileira, baseado em dados do Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) dos anos de 2021 e 2022, lança luz sobre as dimensões atuais da histórica desigualdade brasileira.

O documento evidencia uma concentração extrema de renda no topo da pirâmide econômica, com os 10% mais ricos detendo mais de 50% da renda total, e os 0,1% mais ricos recebendo quase 12% da renda total, uma característica que tem se mantido estável ou até mesmo se agravado ao longo dos anos.

Essa concentração de renda é reforçada por uma série de fatores, incluindo um sistema tributário regressivo e a persistência de desigualdades estruturais. O relatório destaca que as maiores rendas vêm predominantemente de rendimentos do capital, como lucros e dividendos, que são menos tributados em comparação com os rendimentos do trabalho. Este cenário se alinha às observações do economista Thomas Piketty, que aponta a tendência de a renda do capital superar o crescimento econômico.

Além disso, o relatório revela disparidades significativas na distribuição de renda entre diferentes gêneros e regiões, bem como em diferentes tipos de renda (tributável, isenta e de tributação exclusiva). As mulheres, apesar de representarem uma parcela considerável dos declarantes de IRPF, possuem uma participação menor na renda total. Regionalmente, observa-se que algumas regiões, como o Sudeste, apresentam uma concentração maior de renda em comparação com outras regiões do país.

As conclusões do relatório também evidenciam que a reforma tributária recém-aprovada, a despeito de alguns avanços, não andou o bastante na direção de maior equidade. A alíquota efetiva do IRPF revela que a progressividade do imposto diminui nos estratos de renda mais altos. Essa regressividade no topo obviamente contrasta com os princípios de um sistema tributário equitativo.

Em resumo, a análise dos dados do IRPF de 2021 e 2022 no Brasil reafirma a realidade de concentração de renda e desigualdades estruturais. Urgem políticas econômicas e tributárias para enfrentar essa questão. Isso significa repensar seu sistema fiscal e adotar medidas amplamente implementadas em outros países menos desiguais que promovam uma distribuição de renda mais justa e equitativa. Isso precisa urgentemente ingressar com mais vigor na agenda brasileira.

Edilberto Pontes – Presidente do IRB

Mais recentes

Uma tribuna para todos: advogada autista faz sustentação oral inédita no TCE-PB

TCM-GO adota selo do +Simples, da Atricon, em novo Manual de Redação

Vice-presidente Joaquim de Castro representa a Atricon em homenagem ao conselheiro Edilberto Pontes

Atricon e IRB apresentam projetos ao Tribunal de Contas da Região Autónoma dos Açores, em Portugal

Iniciativa do TCE-MG gera economia de R$ 804 milhões aos cofres públicos

Leia também

Administração Pública: o elo mais frágil da licitação.

Marco Aurélio Bertaiolli é conselheiro do TCE-SP Robert Werner Koller é chefe de Gabinete do Conselheiro Marco Aurélio Bertaiolli, do TCE-SP

Entre a legalidade e o real: o hiato na proteção à infância em Minas Gerais

Durval Ângelo é presidente do TCE-MG e vice-presidente da Atricon

Cinquenta e Três Anos de Caminho Compartilhado

José Wagner Praxedes é conselheiro do TCE-TO