Inaldo da Paixão Santos Araújo
Quem acompanha meus escritos — ou já teve a paciência generosa de sentar-se diante de mim em salas de aula e auditórios — sabe que há um tema ao qual sempre retorno, quase como quem revisita uma inquietação que se recusa a envelhecer: a ausência dos tribunais de contas nas pesquisas que medem a confiança — ou a desconfiança — da população nas instituições.
Volto a ele mais uma vez. Não por insistência gratuita, mas porque os fatos, teimosos, continuam a me convocar.
Uma pesquisa recente do Datafolha, divulgada em março de 2026, revela um dado que não surpreende, mas preocupa: cresce o descrédito nas instituições centrais da República. Os partidos políticos lideram a desconfiança, seguidos pelo Congresso Nacional e pelo Supremo Tribunal Federal. A desconfiança avança, alastra-se, contamina. Em sete das oito instituições avaliadas, o índice piorou. O copo, para muitos, parece não estar apenas meio vazio — mas em processo de esvaziamento.
E, mais uma vez, lá estão ausentes os tribunais de contas. Nem entre os mais confiáveis nem entre os mais desacreditados. Invisíveis?
Mas o que significa não ser lembrado? Será isso um privilégio — o de não carregar o peso da rejeição? Ou será um alerta — o de não ter conquistado, ainda, o espaço relevante da percepção pública?
A confiança, aprendi ao longo da vida pública, não é um atributo automático das instituições. Ela se constrói. E mais: ela se comunica. Não basta ser tecnicamente correto, juridicamente consistente, institucionalmente relevante. É preciso ser percebido como tal.
Os tribunais de contas exercem uma função que, em essência, é nobre e profundamente democrática: zelar pelo bom uso dos recursos públicos. São guardiões silenciosos das políticas públicas, fiscais atentos das contas de governo, sentinelas de uma legalidade que, muitas vezes, passa despercebida aos olhos do cidadão comum. Quando funcionam bem, evitam desperdícios, corrigem rumos, protegem o erário — e, por consequência, a própria dignidade da vida coletiva. Sou uma testemunha viva dos esforços de muitos desses tribunais para se aproximarem da sociedade.
Mas há um paradoxo: quanto mais técnico é o trabalho, menos visível ele se torna.
É nesse ponto que a reflexão precisa avançar. Não se trata de disputar popularidade, seguidores, tampouco de buscar aplausos fáceis. Trata-se de reconhecer que, em uma democracia, a legitimidade também passa pelo reconhecimento social. Instituições que não são compreendidas tendem a não ser valorizadas. E aquelas que não são valorizadas correm o risco de ser ignoradas — ou, pior, questionadas sem defesa.
Tenho convicção de que parte dessa travessia passa pelo fortalecimento de entidades como o Instituto Rui Barbosa (IRB), “A Casa do Conhecimento dos Tribunais de Contas”. Ao longo dos anos, o IRB tem desempenhado um papel fundamental na qualificação técnica, na produção de conhecimento, na celebração de acordos de cooperação e na difusão de boas práticas entre os tribunais de contas do Brasil e de outros países.
Mas vejo nele — talvez por formação, talvez por esperança — um potencial ainda maior: o de ser um agente de aproximação entre os tribunais e a sociedade.
É preciso traduzir o controle. Simplificar a linguagem. Humanizar os números. Dar rosto às auditorias. Divulgar amplamente os benefícios gerados e os impactos alcançados. Explicar, em uma linguagem acessível, e não somente por exigência legal, que por trás de cada parecer existe uma história concreta: uma escola que pode funcionar melhor, um hospital que pode atender com mais dignidade, um remédio que não pode faltar, uma obra que pode, enfim, sair do papel.
A sociedade não desconfia apenas porque as instituições falham. Muitas vezes, desconfia porque não as compreende. Não as considera instituições inclusivas, como bem nos ensinou o professor do MIT e Prêmio Nobel de Economia, Daron Acemoglu.
E aqui reside o desafio — e, ao mesmo tempo, a oportunidade.
Inspirado no artigo “O Judiciário em constante evolução”, do Desembargador José Edivaldo Rocha Rotondano, Presidente do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), biênio 2026–2028 (publicado no A Tarde, em 11/4/2026), e mudando o que deve ser mudado, também afirmo que um Tribunal de Contas “forte, eficiente e transparente não depende apenas da atuação isolada de cada Corte” para que seja conhecido como um órgão essencial para a cidadania e reconhecido como tal, “mas de um esforço coordenado, institucional e constante”. E, para isso, a atuação do IRB é e pode ser ainda mais fundamental.
Num cenário em que cresce o ceticismo, em que a política é vista com reservas e em que até instituições tradicionais enfrentam desgaste, talvez haja espaço para que os tribunais de contas se apresentem de forma mais clara, mais próxima, mais inteligível. Não como protagonistas de discursos, mas como protagonistas de resultados.
Se conseguirem fazer isso — e acredito que podem — deixarão de ser apenas órgãos de controle para se tornarem referências de confiança. Um verdadeiro exemplo a ser seguido e que agregue valor à cidadania.
Porque, no fundo, o silêncio também fala. Mas chega um momento em que é preciso transformar o silêncio em voz.
Inaldo da Paixão Santos Araújo é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) e presidente do Instituto Rui Barbosa (IRB)
*Artigo publicado originalmente pelo jornal Tribuna da Bahia, no dia 8 de junho de 2026.