Com que dinheiro a promessa será cumprida?

O Supremo Tribunal Federal estuda uma súmula vinculante para exigir que toda lei de aumento de despesa indique sua fonte de custeio. Portanto, uma pergunta se tornaria obrigatória a partir de então: com que dinheiro a promessa será cumprida?

Enquanto essa fica sem resposta, a promessa tem o brilho da generosidade. Respondida com franqueza, revela seu preço e, por vezes, uma conta que se transfere em silêncio aos brasileiros de amanhã. O impulso é universal. James M. Buchanan Jr., prêmio nobel de Economia de 1986, mostrou que a democracia, sem amarras, tende a gastar mais do que arrecada, porque o gasto rende votos, e somente regras duradouras corrigem esse viés.

Foi para enfrentar esse risco que o país firmou, ao longo de duas décadas, uma regra de bom senso. Toda lei que cria ou amplia uma despesa obrigatória deve dizer de onde sairá o dinheiro. A Lei de Responsabilidade Fiscal a inscreveu em 2000, e a Constituição a reforçou em 2016.

A regra parecia evidente e, no entanto, precisou ser defendida no caso concreto. Quando o Congresso ampliou um benefício a idosos e a pessoas com deficiência de baixa renda sem apontar a fonte do gasto adicional, de vulto estimado em dezenas de bilhões de reais, coube ao Tribunal de Contas da União ser o primeiro a suscitar a tese de que uma despesa assim deveria ser suspensa até que o custeio aparecesse. Semanas depois, pela mão do ministro Gilmar Mendes, o Supremo acolheu o mesmo raciocínio. A ideia, nascida na prática do controle, ganhou foro constitucional.

É esse percurso que o ministro propõe agora coroar. A iniciativa de editar uma súmula vinculante sobre o tema merece aplauso e merece prosperar. A súmula apenas confere à exigência já existente a clareza e a estabilidade de que o país precisa, para que todo juiz, em qualquer rincão, aplique a mesma regra diante de uma lei que gasta sem dizer como. Onde hoje há precedentes esparsos, passaria a haver uma só voz. A previsibilidade que daí resulta serve ao Estado e a quem planeja, confiando que aquilo que vale hoje ainda valerá amanhã.

Dirão que o Supremo invade a seara do Congresso Nacional. Engana-se quem assim pensa. Ao Parlamento, permanece inteira a liberdade de decidir o que gastar, e a ele se pede apenas que esclareça, ao fazê-lo, com que recursos o fará. Exigir a indicação da fonte é uma ordem que a própria Constituição já dá. Consolidá-la protege a deliberação democrática, ao torná-la honesta, e ampara sobretudo quem mais depende do Estado, pois um benefício sem caixa para custeá-lo chega tarde e encolhido pela inflação que pesa no salário dos mais pobres.

A pergunta, afinal, é simples e é de todos. Com que dinheiro? Ao aprovar a súmula, o Supremo tornará obrigatório respondê-la antes de gastar e firmará que, no Brasil, nenhuma promessa vale mais do que a verdade sobre como será paga. É a forma adulta da generosidade, aquela que se cumpre. O país demorou a aprender a fazer a pergunta. Esta é a hora de torná-la regra.

Bruno Dantas é ministro e ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU)

Artigo originalmente publicado no jornal O Globo em 27.06.2026