Os dados podem revelar irregularidades, orientar campanhas, validar hipóteses e até aproximar instituições da sociedade quando transformados em boas narrativas. Essa foi a principal reflexão do painel “Da Pesquisa à Narrativa: o poder dos dados na Comunicação”, realizado nesta terça-feira (4/8) no IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas (CNCTC), em Ouuro Preto (MG). A conversa reuniu o jornalista Gabriel Ronan e o cientista social Ricardo Martins, com mediação do presidente do Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE) e vice-presidente de Relações Jurídico-Institucionais da Atricon, conselheiro Carlos Neves.
Abrindo o painel, Gabriel Ronan provocou a plateia ao diferenciar “jornalismo de dados” de “jornalismo com dados”, defendendo que o grande desafio da comunicação atual não é encontrar informações, mas identificar aquilo que realmente importa em meio ao excesso de conteúdo disponível. “Antes havia escassez de informação. Hoje, o problema é o excesso. O papel do jornalismo é separar aquilo que realmente tem interesse público”, afirmou.
Ao apresentar reportagens produzidas a partir de bases de dados públicas, o jornalista mostrou como o cruzamento de informações pode revelar irregularidades, validar hipóteses e transformar números em pautas de interesse público. “Os dados podem ser utilizados como instrumento de denúncia, desde que sejam analisados com responsabilidade e contextualização”, destacou. Para Ronan, os portais de dados abertos dos tribunais oferecem um potencial ainda pouco explorado para a produção de conteúdo jornalístico qualificado.
Muito além dos números
Na segunda apresentação, Ricardo Martins ampliou o debate ao defender que dados não significam apenas estatísticas. Para ele, informações sobre comportamento, hábitos de consumo de conteúdo, preferências e interesses também são dados fundamentais para construir estratégias de comunicação mais eficientes. Durante a palestra, o especialista chamou atenção para um erro comum na elaboração de campanhas institucionais: acreditar que existe uma única mensagem capaz de alcançar toda a população. “Quando dizemos que uma campanha é para a sociedade em geral, na prática, acabamos não falando com ninguém”, afirmou.
Segundo Martins, a sociedade é formada por nichos, com linguagens, referências culturais e formas de consumir informação muito distintas. Por isso, uma comunicação ampla e genérica tende a perder força, enquanto mensagens construídas a partir do conhecimento desses diferentes públicos conseguem gerar maior identificação e engajamento.
Mediação
Responsável por mediar o painel, o conselheiro Carlos Neves conduziu o diálogo conectando as reflexões apresentadas pelos especialistas à atuação dos Tribunais de Contas. Ao comentar as exposições, ressaltou que os dados produzidos pelas instituições precisam ganhar contexto para se tornarem úteis ao trabalho da imprensa e compreensíveis para o cidadão. “Às vezes pensamos que a informação já está pronta, mas o olhar do jornalista precisa de comparações e de contexto para transformá-la em algo relevante para a sociedade”, afirmou. Em outro momento, reforçou que a análise dos dados deve considerar os impactos concretos das políticas públicas. “Mais importante do que quantificar é compreender se aquela política realmente melhorou a vida da população.”
IV CNCTC
O IV Congresso de Comunicação dos Tribunais de Contas (CNCTC) ocorre na histórica cidade de Ouro Preto (MG) nos dias 3 e 4 de agosto. O evento é realizado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) em parceria com a Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) e o Instituto Rui Barbosa (IRB). O IV CNCTC tem patrocínio da Prefeitura Municipal de Nova Lima e apoio da Abracom, Audicon, Conselho Nacional de Presidentes dos TCs, Asur e Prefeitura de Ouro Preto.
Texto: Flávia Rezende (TCE-AM)
Edição: Jeferson Cioatto (TCE/SC)