Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

Tribunais de contas e as demandas sociais

Por Francisco de Souza Andrade Netto

Francisco de Souza Andrade Netto *

Reunidos em Fortaleza, durante o IV Encontro Nacional no início do mês, ministros e conselheiros dos tribunais de contas da União, dos estados e dos municípios decidiram lutar pela criação de um Conselho Nacional dos Tribunais de Contas, um órgão superior de controle, fiscalização e correição – a exemplo do Conselho Nacional de Justiça e Conselho Nacional do Ministério Público -, para fortalecer, normatizar e impedir desvios nos órgãos de controle externo que são fundamentais num regime republicano e democrático. Além disso, exigir nas indicações para as cortes o fiel cumprimento dos pré-requisitos constitucionais assim como as condições impostas pela “Lei da Ficha Limpa” para o exercício de cargos públicos, entre os quais o de conselheiro.

Esta rápida resposta dos conselheiros de todo o país certamente vai estancar uma campanha perigosa, encampada por alguns veículos de comunicação, de minimizar a importância das cortes de contas e de desmerecer a sua tarefa (é sempre importante frisar) indispensável num regime democrático, de fiscalizar a boa aplicação dos recursos públicos. É claro que enfrentamos problemas, que precisamos corrigir erros e que precisamos avançar na transparência das cortes. E as decisões aprovadas no IV Encontro Nacional são provas deste reconhecimento. O que não podemos admitir, o que nos causa indignação é a generalização, é o despropósito dos ataques aos tribunais de contas brasileiros, baseados em informações inconsistentes e superficiais.

O curioso é que muitas vezes a ligeireza dos críticos ao apontar o dedo para as cortes de contas é para destacar algo que vem sendo preservado ao longo dos tempos pelos legisladores, ou seja, a pluralidade de origem dos conselheiros, o que na verdade é salutar e contribui para um julgamento mais justo dos gestores públicos. O fato de alguns dos seus membros terem cumprido mandatos eletivos ou ocupado cargos de agentes políticos – respeitados os critérios definidos na Constituição – não os desmerecem e muito menos desvirtua a missão constitucional dos tribunais de contas. O que desgasta a imagem dos tribunais, o que nos constrange junto à opinião pública são os desvios de conduta, e é isto que estamos dispostos a enfrentar com o Conselho Nacional dos Tribunais de Contas.

É inquestionável o êxito dos tribunais de contas na luta contra a corrupção e a contribuição na punição dos maus gestores e, mais ainda agora, com a relevância que ganhou suas decisões, com base na “Lei da Ficha Limpa”, para o indeferimento de candidaturas a cargos eletivos pela Justiça Eleitoral. Talvez essa seja a origem de eventuais campanhas difamatórias que visam desqualificar o serviço prestado à cidadania pelas Cortes de Contas.

A título de exemplo, basta citar que o Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia, em relação ao ano de 2012, auditou recursos da ordem de R$47,5 bilhões. Do total de contas examinadas de prefeituras, 47% foram rejeitadas e foram feitas 297 representações ao Ministério Público Estadual para apuração de atos que caracterizam o crime de improbidade administrativa. O TCM atendeu ainda 801 requisições da Justiça e dos ministérios público Federal e Estadual para instruir processos referentes a agentes públicos, e julgou 194 processos de denúncias e 389 termos de ocorrências. Esses dados, que não são exclusivos do TCM baiano, sinalizam o volume e a compulsividade do trabalho realizado pelas cortes de contas do Brasil.

Os tribunais não se acomodam e nem se compadecem com as mazelas públicas. Claro, precisamos avançar na modernização. O que todos desejamos são instituições à altura das demandas sociais, que exigem serviços públicos eficientes e gestão pública decente. O que queremos é que os tribunais de contas cumpram fielmente o que deles esperam e exigem os cidadãos brasileiros. Com ética, independência, transparência e eficiência.

*Francisco de Souza Andrade Netto é conselheiro presidente do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia e presidente da Associação Brasileira dos Tribunais de Contas dos Municípios (Abracom).

**Artigo publicado no jornal “A Tarde” edição 26/08/14.

Mais recentes

Comitê Executivo do MMDi-TC avalia resultados dos pilotos e define próximos passos

Conselho Diretor do CNCE-CGIBS realiza primeiro encontro e define ações iniciais

Diretor Edilberto Pontes representa a Atricon em Congresso da ABDE, no Rio

Rede Integrar promove webinário para apresentação das propostas de ações do PAT 2027

Tribunais de Contas têm até 30 de outubro para aderir às ações da Rede Integrar

Leia também

Dívida Pública: ponto preocupante que merece atenção dos Tribunais de Contas

Omar Pires Dias é conselheiro do TCE-RO

Waldir Pires, a COAPAJ e a dívida histórica da Bahia com o controle interno

Inaldo Araújo é presidente do Instituto Rui Barbosa (IRB)

Administração Pública: o elo mais frágil da licitação.

Marco Aurélio Bertaiolli é conselheiro do TCE-SP Robert Werner Koller é chefe de Gabinete do Conselheiro Marco Aurélio Bertaiolli, do TCE-SP