Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Agenda do Controle

Uma nova certidão de nascimento para os Tribunais de Contas do Brasil

Edilson Silva

O dia 5 de maio passa a integrar, de forma definitiva, o calendário das datas mais relevantes da história institucional brasileira. Neste dia, o Congresso Nacional promulgará a Proposta de Emenda à Constituição 39/2022, conhecida como PEC da Essencialidade, que reconhece, de maneira expressa, os Tribunais de Contas como instituições permanentes e essenciais ao exercício do controle externo da administração pública.

Não se trata de mera alteração do texto constitucional. Trata-se de um avanço estrutural que fortalece a democracia, protege o interesse público e reafirma o compromisso do Estado brasileiro com a boa governança.

Ao consagrar a essencialidade dos Tribunais de Contas, o constituinte derivado reafirma um princípio basilar do Estado Democrático de Direito: não há gestão pública eficiente sem fiscalização independente, técnica e contínua. Os Tribunais de Contas exercem papel decisivo na indução de boas práticas administrativas, na prevenção de irregularidades, no combate ao desperdício de recursos públicos e na avaliação da efetividade das políticas públicas.

Mais do que órgãos de controle, são instituições que atuam de forma preventiva, orientando gestores, qualificando decisões e protegendo o cidadão antes que o dano ocorra. E, quando necessário, atuam com rigor técnico e institucional para responsabilizar aqueles que causam prejuízo ao erário.

Nesse contexto, a promulgação da PEC representa uma nova certidão de nascimento para os Tribunais de Contas do Brasil. O reconhecimento explícito de sua condição de instituições essenciais consolida sua natureza de órgãos de Estado, e não de governos, garantindo-lhes estabilidade institucional e reforçando sua missão constitucional.

Essa conquista também encerra um ciclo de insegurança jurídica que, por anos, expôs o Sistema Tribunais de Contas a interpretações que fragilizavam sua existência. O episódio mais emblemático foi a extinção do Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará, em 2017, por meio de emenda à Constituição estadual. À época, o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que não havia vedação constitucional expressa que impedisse tal iniciativa.

O caso revelou uma lacuna normativa relevante: a ausência de proteção constitucional explícita à permanência dos Tribunais de Contas.

A partir da promulgação da PEC, esse cenário é definitivamente superado. A Constituição passa a assegurar, de forma inequívoca, a existência dessas instituições, impedindo iniciativas que comprometam o sistema de controle externo. Ganham o Brasil, a sociedade e a democracia.

O fortalecimento dos Tribunais de Contas representa reforço da cidadania. Em um país de dimensões continentais e de enormes desafios sociais, garantir que cada recurso público seja bem aplicado é condição essencial para a redução das desigualdades e para a entrega de políticas públicas eficazes.

Nesse processo, é importante destacar o papel de todos aqueles que integram o Sistema Tribunais de Contas. Conselheiros e conselheiras, conselheiros substitutos, auditores de controle externo, membros do Ministério Público de Contas, servidores e colaboradores formam um corpo técnico altamente qualificado, comprometido com a legalidade, a eficiência e a transparência da gestão pública.

A valorização institucional promovida pela PEC também alcança esses profissionais, que passam a atuar em um ambiente ainda mais seguro, estável e reconhecido constitucionalmente, fortalecendo sua capacidade de servir à sociedade com independência e excelência.

A promulgação dessa emenda constitucional também simboliza o êxito de um trabalho institucional construído com diálogo, articulação e convencimento democrático, liderado pela Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) e apoiado por diversas lideranças comprometidas com o aprimoramento das instituições republicanas.

O resultado desse esforço coletivo é um texto constitucional mais claro, robusto e alinhado às exigências de uma sociedade que demanda cada vez mais transparência, responsabilidade e eficiência na gestão pública.

Com isso, o Brasil dá um passo decisivo na consolidação de um Estado mais íntegro, eficiente e comprometido com o interesse público.

O 5 de maio torna-se o dia em que o Sistema Tribunais de Contas conquista a proteção constitucional definitiva e bases sólidas para cumprir, com independência, rigor técnico e responsabilidade social a sua missão. Uma vitória da sociedade brasileira.

Edilson Silva é conselheiro do TCE-RO e presidente da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon)

*Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense, no dia 4 de maio de 2026

Mais recentes

MMDi-TC avança para fase de validação prática após treinamento em Minas Gerais

TCE-SC atua de forma preventiva e orienta gestores municipais sobre contratações emergenciais

Lançamento de guia sobre contratações de publicidade integra programação do Congresso da ABCPública

Inep recebe solicitação de cronograma para execução de acordo sobre dados educacionais

Atricon — Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil

Portaria 65/2026

Leia também

Segurança jurídica é infraestrutura

Bruno Dantas é empresário e ministro emérito do TCU

Crise de reputação é acidente aéreo: não há monopólio do erro

Bruno Dantas é empresário e ministro emérito do TCU Leandro Colon é sócio-fundador da Fides Global Consulting

República dos Pequenos Desperdícios

Inaldo Araújo é presidente do Instituto Rui Barbosa (IRB)