IV CNCTC: Painel discute impactos da inteligência artificial na comunicação pública

“Comunicação Pública e Inteligência Artificial: desafios e oportunidades” foi o tema que deu início aos debates do segundo dia do IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas (CNCTC), que termina nesta terça-feira (4/8) em Ouro Preto (MG). O painel foi mediado pela jornalista e especialista em inteligência artificial (IA) aplicada à comunicação Ana Freitas e pelo mestre em IA e ética e especialista em negócios digitais Alexandre Sayad.

Em sua palestra, Ana Freitas apresentou um experimento que conduziu com um modelo de IA: antes de sair para correr, pediu para a ferramenta criar um portal de notícias sobre a Grande ABC, região metropolitana de São Paulo. Em um parágrafo, ela listou as fontes que a IA deveria consultar, indicou o formato das notícias, definiu que os créditos e os links dos conteúdos originais deveriam ser citados e solicitou que todas as notícias fossem acompanhadas de fotos. 53 minutos depois, quando voltou da corrida, o portal estava no ar.

O caso ilustra as potencialidades da inteligência artificial no campo da comunicação. Durante sua apresentação, Ana informou que ficou surpreendida com o resultado porque a IA criou não apenas um site, mas uma redação inteira com pequenos agentes, cada um especializado em uma função. Ela chamou esse site de “genérico competente” porque era bonito, limpo e organizado o suficiente para enganar a maioria das pessoas se quisesse.

A possibilidade de criar notícias falsas foi um tema que a especialista também destacou em sua fala. Segundo ela, a desinformação não é produto da IA generativa, mas, com ela, fazer uma fábrica de mentiras não é só possível, como acessível e até fácil. “A verdade não é tão divertida, tão simples, tão gostosa quanto a desinformação. A mentira pode ser o que quiser para agradar as pessoas”, avalia.

Por isso, Ana Freitas reforça a importância do trabalho dos comunicadores no combate às notícias falsas. Para ela, os profissionais de comunicação podem usar a própria IA para combater a desinformação que inunda as telas e, com mais trabalho e mais ética, usar a IA também para produzir informação de alta qualidade e ajudar a aumentar a percepção da importância das instituições para o fortalecimento da democracia para o público geral. Mas também adverte: “Trabalhar com IA pede que a gente encorpe nossas referências. Cada vez mais vamos precisar desenvolver nosso repertório para avaliar o trabalho da IA.

Já Alexandre Sayad informou que a IA é uma tecnologia de propósito geral porque tem impacto em todos os campos do saber. Da mesma forma, ela é multidisciplinar. Da engenharia e matemática até o jornalismo, cada profissão a utiliza de forma diferente e possui visões diversas sobre ela. Para o palestrante, não é possível medir os limites da IA e, se por um lado ela já reduz as tarefas repetitivas no contexto do mercado de trabalho, ainda há dúvidas sobre sua capacidade para executar de atividades mais complexas.

O especialista ainda chamou atenção para o fato de a inteligência artificial não ser algo recente. “A IA não é nova nem é um acidente do acaso. Ela é fruto da evolução humana. Quando o Museu de Arte de São Paulo foi inaugurado em 1947, o primeiro paper sobre IA estava sendo escrito”, informou. E também mostrou que seus fundamentos já são utilizados há muito tempo em tarefas simples. Entre um livro de receitas e um robô, por exemplo, o livro é o que mais se aproxima da lógica da IA porque apresenta uma série de instruções que devem ser seguidas para se alcançar um fim específico.

Alguns questionamentos feitos por Alexandre têm relação com uma vantagem que a inteligência artificial também proporciona: a personalização. Ao mesmo tempo em que se pode criar conteúdo direcionado a públicos específicos, isso pode gerar dificuldades de comunicação. “A IA é uma personalizadora de primeira. O problema disso é que estamos caminhando para uma audiência de uma pessoa só. Onde fica o debate público? Como vou conversar com uma pessoa que não assistiu ao mesmo filme que eu, que não teve acesso à mesma informação?”, refletiu.

Em sua palestra, ele também apresentou em quais aspectos a comunicação pública pode se beneficiar com o uso da IA. Entre eles, estão a simplificação de informações técnicas, a produção de conteúdos em vários formatos, o apoio de assistentes virtuais, a facilitação de consultas a bases oficiais, o apoio no relacionamento com a imprensa e a ampliação da acessibilidade da informação.

IV CNCTC

O IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas (CNCTC) ocorre na histórica cidade de Ouro Preto (MG) nos dias 3 e 4 de agosto. O evento é realizado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), em parceria com a Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) e o Instituto Rui Barbosa (IRB).